Os tais 13 porquês

Por: Greice Scotton | 20/04/2017 00:00:00

Há alguns anos, eu tentei largar o jornalismo. Justo eu, apaixonada por essa profissão de tantos dilemas. Quis lar­gar tudo após perceber que alguns veículos de comunicação deixam de lado seu papel social caso não recebam verbas publicitárias. Durante um ano e meio, fui orientadora edu­cacional, uma das experiências mais marcantes da minha vida, tanto positiva quanto negativamente. A parte posi­tiva: ter a chance de conviver com crianças e adolescentes, acompanhar suas alegrias e tristezas, suas angústias e so­nhos, seus dilemas aparentemente sem importância. Isso me mudou profundamente.

Contei a você essa breve história para contextualizar o que vem a seguir. Nas últimas semanas, uma série lança­da pela Netflix começou a ganhar repercussão e aguçou a minha curiosidade. “13 Reasons Why” – “Os 13 porquês”, em português – é baseada no best-seller lançado em 2007 nos Estados Unidos e conta os motivos que levaram uma garota de 17 anos a cometer suicídio. Antes de tirar a pró­pria vida, ela grava 13 fitas em que relata as situações e os personagens que teriam contribuído para a decisão.

Dediquei um dia inteiro a assistir a cada episódio e anotar minhas percepções. A primeira delas foi o choque de perceber como a série vai totalmente contra algo que já abordei antes, neste mesmo espaço: a recomendação da Organização Mun­dial da Saúde para que não se divulgue – ou o faça da forma mais discreta possível – a questão do suicídio, já que pessoas fragilizadas podem se inspirar e tirar a própria vida ao ver ou­tras que não conseguiram superar problemas semelhantes aos dela. Se isso ocorre entre os adultos, teoricamente mais ma­duros emocionalmente, imagine entre os jovens, vendo tudo de forma tão “didática”! Por outro lado, poucas vezes vi uma abordagem tão simples de um tema tão sedento de discussão ganhar tamanha repercussão entre os adolescentes.

Entrei a fundo no assunto e encontrei uma crítica feita pelo jornalista André Trigueiro, que tive o prazer de conhe­cer durante um seminário sobre espiritualidade e meio am­biente há alguns anos. Tomo a liberdade de reproduzir parte dela – por concordar com a opinião dele e para aproveitar o conhecimento técnico que alguém que estuda o fenômeno suicídio há quase 20 anos. “A série é inspiradora – no mau sentido – para que jovens depressivos e angustiados não per­cebam outra saída que não a própria morte. Pior: sugere que suicidas em potencial registrem em gravações ou anotações os ‘culpados’ pelos seus infortúnios, e punam através do sui­cídio aqueles que lhe faltaram quando mais precisavam. O suicídio como pretexto para se vingar de alguém, aliás, é um comportamento patológico. Mas a personagem prin­cipal da série não parece alguém que possua algum distúr­bio. Pelo contrário. O relato sereno e lúcido de Hannah nas gravações sugere que o suicídio possa ser a resposta esperada, previsível, diante de tantas desilusões e sofri­mentos. Será? ... A série da Netflix promove também a vitimização do suicida, justificando o autoextermínio de Hannah por tudo o que lhe aconteceu. Como se diante de tantas experiências dolorosas, não houvesse mesmo outra saída. Como se os outros – quando não fazem exatamente aquilo que esperamos deles – pudessem ser responsabili­zados pelo suicídio de alguém.”

Voltando às minhas percepções: logo nos primeiros ca­pítulos, me vi pensando sobre o quão cruéis crianças e ado­lescentes podem ser. A sequência de problemas mostrada na série se assemelha à rotina da maioria das escolas – piadas em sala de aula, deboche sobre aparência física e bullying virtual, por exemplo – mas evolui para situações de gravida­de muito maior, como abuso de álcool e drogas e violência sexual, não tão comuns (ou não descobertas). Confesso que o bullying do dia a dia não me chocou tanto quanto achei que faria. Cheguei à conclusão de que essa “banalização” pessoal ocorreu por eu ter sofrido com isso durante toda minha vida escolar, assim como a maioria dos meus cole­gas. Na nossa época, o assunto não era levado a sério como é atualmente, mas confesso que, apesar de ter sobrevivido, tenho até hoje sequelas emocionais que considero irrever­síveis e que poderiam ter sido evitadas se os meus dilemas aparentemente sem importância da adolescência tivessem sido percebidos por algum adulto. Ou talvez essa sensação de “normalidade” ocorreu por eu ter convivido com o pro­blema quando trabalhei com educação e de não ter encon­trado uma fórmula mágica para minimizá-lo.

Uma parte, no entanto, me deixou abismada: per­ceber como os adolescentes (tanto agressores quanto vítimas) são capazes de cometer ou passar por atrocida­des e esconder isso de pais e professores de uma forma absurdamente natural.

Sigo buscando respostas – e, como jornalista, pergun­tas que poderiam ser feitas – para tentar ajudar a resolver esse problema que faz tantos jovens quererem deixar de viver. E isso, infelizmente, não é privilégio da ficção. Mas, na mesma proporção, sigo sem soluções que tenham vo­cação para surtir algum efeito. A teoria sobre como com­bater o bullying é linda, multidisciplinar. Mas a realidade é que a maioria das angústias ocasionadas por esse com­portamento sequer chega aos pais e aos educadores. E não é por falta de tentativa ou de interesse dos adultos, mas em razão do hábito nocivo de não olharmos uns aos ou­tros, seja em que idade for. Como podemos combater algo do qual muitas vezes sequer tomamos conhecimento?

O SERRANOSSA se dispõe a entrar nessa discussão. Se você já sofreu, praticou ou tem uma opinião sobre como o bullying pode ser minimizado, compartilhe sua experiên­cia através do e-mail [email protected] 


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Greice Scotton

Greice Scotton

 



Editora-chefe do Grupo SERRANOSSA desde 2010, é formada em Comunicação Social - Habilitação Jornalismo, pela Unisinos, e tem na Língua Portuguesa e na Fotografia duas de suas maiores paixões.



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