Abster-se ou envolver-se?

Por: Felipe Sandrin | 22/09/2017 09:26:31

Quem respira política imagina que assim também sejam todos. Fazemos do nosso universo algo que abrange tudo que há de crucial no mundo. Imaginamos que assim seja e dessa forma alimentamos a ideia de que as questões que nos ocupam são, então, as questões fundamentais. 
Religião, sexualidade e time de futebol. Abraçamo-nos a algo a fim de ganharmos uma identidade. A identidade é o sólido, a crosta que molda a falsa estabilidade que não encontramos dentro de nós. O diploma na parede, a crença, nosso sobrenome e tudo aquilo pelo que somos reconhecidos. Queremos, precisamos de uma identidade.
Difícil para alguém que respira política imaginar que outras pessoas apenas queiram chegar em casa após um duro dia de trabalho, tomar um belo banho quente e sentar alguns minutos em frente à TV esperando o sono chegar para amanhã começar tudo de novo. Por que desejamos tão ardentemente que outros encarem as coisas como nós encaramos? Ora, porque nossa identidade depende daquele assunto, se muitas pessoas não ligam para algo que para nós é fundamental, qual seria então nossa real importância para elas?
Nesta semana observei um fato curioso. Um conhecido meu, fervoroso esquerdista, foi assistir o jogo de seu amado clube, o Grêmio. Eis que no meu Facebook surge a foto de outro conhecido, esse por sua vez um declarado conservador, fã assumido do Bolsonaro. Lá estavam os dois juntos no estádio, sobre as mesmas cores do Grêmio. Devem ter se abraçado junto ao gol, gargalhado ao mesmo tom quando soou o apito final. Dois prováveis inimigos unificados sobre a bandeira de algo tão superficial como o futebol.
No natal de 1914, alemães e britânicos se massacravam na horrenda disputa por uma parte importante de um território na Bélgica. Não se sabe ao certo o motivo, mas o fato relatado conta que naquela fatídica tarde algo desencadeou um dia de paz. Bandeiras brancas emergiram das trincheiras, soldados se uniram em território neutro e ali trocaram alimentos, presentes e inclusive jogaram uma partida de futebol. No dia seguinte voltariam a se matar, mas aquele natal de 1914 entrou para a história como “Christmas truce” (a trégua de natal).
Vivemos dias tóxicos. Os embates se tornam cada vez mais violentos. A cada novo passo que algum dos lados dá, logo o outro responde mostrando que pode ir além. Fim dos tempos? Talvez os que conheçam menos da história humana pensem isso, mas os que estudaram um pouco mais preferem classificar como uma “falta de agenda humana”. Sempre estivemos muito ocupados com questões fundamentais como a fome, doenças e grandes guerras. Como nos últimos cinquenta anos as chances de sermos dizimados por algum desses fatores diminuiu drasticamente, passamos a dar espaço para os pequenos dilemas diários. Esperar em filas, trânsito caótico, internet lenta, tudo isso passou a nos incomodar muito mais do que a Coreia do Norte e suas ameaças ou se crianças estão tomando vacinas na África.
Importar-se com os outros está na moda. Soa bem em meio a uma janta você falar sobre as pessoas que não tem um telhado, nem comida. É sempre interessante você classificar como loucos os que não respeitam a liberdade sexual e chamar de radicais aqueles que pregam suas crenças. Vivemos em tempos de propaganda, aprendemos cedo como cada um precisa vender seu peixe: mas qual a primeira dica das vendas? Não deixe o cliente notar que você está desesperado para vender, isso desvaloriza o produto e desvaloriza você.
Portanto, tome cuidado. Antes de tudo questione-se: “O que será que ele está tentando me vender?”.

 


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Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: [email protected]



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