Viver com calma – e com alma

Por: Greice Scotton | 22/09/2017 11:55:47

“Hoje percorrendo a estrada até Bento, vi uma cena que mexeu imensamente comigo. Não sei se pela nostalgia ou pela TPM, me emocionei ao ver um avô e uma neta, de uns três aninhos, rindo sentados num daqueles banquinhos de madeira que servem de parada de ônibus no interior. O motivo de tanta felicidade era acenar para cada carro ou caminhão que passasse. Que encantadora essa ingenuidade, essa pureza reservada aos velhos e às crianças. Lembrei prontamente do tempo em que andávamos soltos no porta-malas dos fuscas e brasílias, sem cadeirinhas, sem cinto de segurança. O programa favorito era abanar pras pessoas do carro de trás. Quando alguém acenava de volta explodíamos em risadas envergonhadas. Acho que o mundo tecnológico e violento roubou-nos muito dessa forma simples de felicidade. Mas pra quem já a experimentou, basta um aceno para que ela retorne e nos lembre de sua existência.”
 
O texto acima foi publicado pela Talise Valduga Zanini, minha vizinha de quarteirão por longos anos, quando ainda morávamos com nossos pais. Nossa infância foi marcada por brincadeiras na rua, ida e volta ao colégio a pé. Não existia celular, nem internet. Contato com o pessoal de casa só via telefone público (o carinhoso orelhão) e ainda com ficha – e azar o nosso se ninguém atendesse, porque só existiam telefones fixos! As noites eram de brincadeiras ao ar livre, disputando espaço com os poucos carros que passavam em ruas de paralelepípedos. Tínhamos amigos de carne e osso, não virtuais. Subíamos nas muitas árvores que existiam, comíamos frutas direto do pé. Pesquisávamos em pesadas enciclopédias, não no Google. Se quiséssemos copiar algo, dava um trabalhão, bem ao contrário do mundo de hoje, no qual a combinação de três teclas faz tudo por nós – inclusive causar problemas por plágio. Sobre a TV a cabo sequer ouvíamos falar, a diversão do final de semana era ir à locadora escolher filme. E quem não rebobinasse, levava multa. As coisas não eram tão facilitadas quanto hoje, mas me parece que ser feliz era mais simples. Sem internet nem celular e ninguém morreu por isso. 
Pensando friamente, percebo como a infância de hoje é triste. Quantas crianças que só sabem se divertir se houver algo eletrônico, que não terão a adrenalina de jogar bola na rua temendo acertar o telhado daquela vizinha rabugenta que ameaçava chamar a polícia. Que provavelmente nunca saberão quão marcante é a experiência de colher uma cenoura, tirar o excesso de terra na roupa e comer ali mesmo ou ainda as que crescerão achando que o leite vem da prateleira do supermercado. Os futuros adultos de hoje veem o mundo passando rápido pela janela de um carro ou parecendo distante demais da sacada de um apartamento. Posso dizer que, enquanto criança, fui feliz. Minhas maiores aventuras da infância – reais ou imaginárias – foram vividas no trajeto a pé para a escola. Caminhando a vida passa mais devagar, temos tempo de apreciar a beleza dos singelos detalhes do nosso cotidiano.
Os tempos mudaram e, como bem disse a Talise, a tecnologia e a violência nos roubaram essa forma simples de felicidade. Nas minhas lembranças, o passeio na Rural do meu avô aos domingos e a diversão de um banho de mangueira quando as estações do ano ainda eram bem definidas – uma das tarefas de que tenho mais saudade é de arrumar o guarda-roupa conforme o clima (no inverno, guardar as roupas de verão e vice-versa). Hoje a temperatura varia tão drasticamente no mesmo dia que camisetas leves e casacões habitam as mesmas prateleiras. Tantas histórias, tão simples, mas complexas em experiências e riquíssimas em memórias.
Talvez daqui a alguns anos alguma criança de hoje venha ocupar esse mesmo espaço para dizer que as gerações seguintes nunca saberão o que é ser feliz. Porque felicidade era simplesmente ir para a escola ou jogar no celular até adormecer. Talvez daqui a alguns anos o jornal impresso deixe de existir, ou o mundo se autodestrua, ou a vida siga seu ciclo de maneira sutil. Talvez daqui a uns anos, cansados de tanta tecnologia, a gente volte a dar valor para a simplicidade que um “viver com calma” proporciona. Tal qual a minha infância e a da Talise.


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Greice Scotton

Greice Scotton

 



Editora-chefe do Grupo SERRANOSSA desde 2010, é formada em Comunicação Social - Habilitação Jornalismo, pela Unisinos, e tem na Língua Portuguesa e na Fotografia duas de suas maiores paixões.



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