A engrenagem do medo

Por: Greice Scotton | 29/09/2017 16:31:07

O que mais me assusta na violência é a facilidade com que ela acontece. Duas pessoas conversando em uma praça, rodeadas de várias outras, de famílias, com crianças e animais de estimação. De repente, um desentendimento qualquer e uma delas saca um revólver e dispara à queima-roupa contra a outra. Em uma fração de segundo, o cenário familiar vira cena de crime. A alguns quarteirões de distância, um homem morre enquanto conversa com amigos perto de uma escola. Do outro lado da cidade, outro é atingido em frente a um bar e não resiste. 
A última semana teve quatro homicídios registrados em Bento Gonçalves, dos quais dois em um intervalo de menos de 24h – e nessa estatística não entram as tentativas, os assaltos e as pessoas feridas. Tudo isso na mesma semana em que a bomba-relógio que chamamos por aqui de presídio foi novamente in¬terditada por superlotação e falta de condições mínimas. 
Se esse assunto esteve entre alguma das suas conversas, aposto que alguém (ou até você próprio) deve ter comentado algo do tipo “Bento está um caos em termos de segurança”. Não há como discordar, embora saibamos que não se trata de um problema exclusivo nosso. Mas é importante atentarmos para os reais motivos que fazem com que a insegurança e a violência cresçam dia após dia – e nos darmos conta de que algumas atitudes nossas podem estar contribuindo para isso, mesmo que involuntariamente. 
Não me venha com o velho clichê de que a polícia é ineficiente ou que a culpa é (só) de quem governa. Se a situação está como está é graças a uma conjuntura de fatores complexos que passa, também – e infelizmente –, pela política. Digo infelizmente porque os maus políticos são os que mantêm funcionando a engrenagem que movimenta a roda da corrupção, do uso incorreto do dinheiro público e da burocracia que faz com que as poucas iniciativas positivas fiquem estagnadas enquanto o medo nos assombra. Mas passa também por aquele seu amigo que acha “legal” fumar maconha ou cheirar cocaína por diversão, pelo empresário que sonega impostos, por aqueles que alimentam a indústria da pirataria e tantas outras pessoas que não assumem, mas que contribuem para que o Brasil esteja do jeito que está. 
Precisamos ter em mente que melhorar a segurança vai muito, muito além de mais policiais e viaturas na rua. Por maior que seja um efetivo, é impossível estar em todos os lugares ao mesmo tempo e antes que algo aconteça. Uma maior segurança passa por todos nós, desde a hora em que escolhemos nossos governantes – e depois não cobramos eficiência deles – até pelas escolhas que fazemos no que diz respeito à prevenção. Claro que passa também por decisões políticas e estratégias de inteligência, assim como pela repressão efetiva – a impunidade é uma excelente motivação para muitos. Por outro lado, de nada adianta um criminoso ser preso e ser liberado antes mesmo de a testemunha terminar seu depoimento ou ser detido e viver em condições subumanas que o tornam uma pessoa ainda pior. Traduzindo: é preciso mudar muito, em muitos aspectos. 
O fato é que de nada adianta seguirmos com julgamentos superficiais e jargões inúteis. Segurança pública é um problema nevrálgico que demanda um esforço de toda a sociedade. E, infelizmente, não vejo uma perspectiva de melhora enquanto não houver uma mobilização generalizada a favor da vida. Quer um exemplo prático? Na mesma semana em que Bento teve quatro assassinatos, uma emissora exibiu uma reportagem a respeito de um homem preso por tráfico em São Paulo. Questionado por um policial, ele responde que estava vendendo drogas há apenas duas semanas, depois de ser demitido do emprego em um açougue por causa da crise. Quando o mesmo agente perguntou se ele não havia tentado algo diferente, que não fosse crime, ele respondeu que ganhava em poucas horas o equivalente a uma semana como pedreiro – a segunda profissão que tentou seguir após a demissão – e que foi a forma que encontrou de sustentar a família. E adivinha quem alimenta esse ciclo? Talvez alguém que você conheça. 

 


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Greice Scotton

Greice Scotton

 



Editora-chefe do Grupo SERRANOSSA desde 2010, é formada em Comunicação Social - Habilitação Jornalismo, pela Unisinos, e tem na Língua Portuguesa e na Fotografia duas de suas maiores paixões.



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