Conheça o mundo: Perca-se de si

Por: Felipe Sandrin | 10/06/2017 14:28:48

De frente à TV, mas com o celular em mãos. Através das atualizações nas redes sociais de meus amigos, percebo que as viagens não param. Roma, Paris, Vietnã, Amsterdã, etc... etc. Fotos bonitas em lugares incríveis: o mundo está andando e eu aqui parado? Consulto valores de passagens aéreas, diversos pacotes em promoção: R$ 1.800 e mês que vem consigo viajar a Paris. Mas e os gastos lá? Entro no aplicativo Airbnb, ele permite que qualquer pessoa alugue sua moradia para outras pessoas. Encontro um dormitório perfeito com vista para a torre Eiffel. Valor? R$ 95 a diária. Talvez a comunicação seja um problema, meu inglês é ruim, meu francês é pior ainda. Mas uma propaganda dentro do aplicativo me chama atenção: ‘Google lança Pixel Buds, fones de ouvido que traduzem simultaneamente mais de quarenta idiomas’. Preço de lançamento: R$ 500. 

Sensação reconfortante: olha só, eu também posso viajar pelo mundo no mês que vem. Economizo aqui, deixo de comprar aquilo lá e ‘voilà’, Paris é logo ali. 

O mundo parece caber em minhas mãos, que ótimo! Mas esse mundo também é tão cheio de problemas. Como então posso não me deixar afetar pela crise em Cracóvia e o ataque das abelhas assassinas na Hungria? ‘Ah, mas isso não nos afeta’. É, talvez. Mas quando sair no Jornal Nacional, quando for manchete em todos os sites que você costuma acessar, pronto, é o peso do mundo sobre seus ombros. Afinal, se viajar é tão fácil e o mundo nos pertence, como não podemos pertencer aos problemas dele? 

Seguimos baseando nossas buscas através de nosso desenho mais magnânimo da transcendência: nós queremos agora ser o próprio Deus. Os celulares nos trazem a onipresença, é como se pudéssemos estar em diversos lugares, no trabalho, no discurso de Trump, com a garota que flertamos há meses. Se cabia somente a Deus o poder de estar sem estar, agora cabe também a nós. Próximo passo? Driblar a morte. Parece piada, mas as dez maiores corporações tecnológicas no mundo investem mais de 20% de seus ganhos em tecnologias que permitam criarmos o ser humano amortal – que não morre de causas naturais. E se da imortalidade estamos longe, para a amortalidade muitos cientistas condizem no discurso de ‘estamos no caminho’. 

Até o ano de 1500, nenhum humano havia circum-navegado a terra. Em 1522, Magalhães viu quase toda sua tripulação sucumbir até que após três anos de viagem ele realizou o feito. Por volta de 1873, Phileas Fogg, um rico aventureiro, levou oitenta dias para vencer o globo. Hoje, 2017, qualquer pessoa de classe média pode circum-navegar a terra em apenas 48 horas. 

Milhares de anos para chegarmos até o hoje. Fico a imaginar um homo sapiens a olhar para as estrelas, para a linha do horizonte no mar. Certamente ele não poderia imaginar que chegaríamos tão longe, aliás, bem provavelmente o longe não existia para ele. A pedra deu lugar a aparelhos telefônicos com milhões de componentes, cada um destes extraídos e produzidos em um canto do mundo. Em nossas mãos um produto oriundo da união de milhões de pessoas que não se conhecem. Do extrator de minério em Trindade e Tobago ao cientista em Osaka, no Japão. 

Tantas possibilidades, tantas facilidades, por que então essa maldita pecinha dentro de nós insiste em dar defeito? Por que essa engrenagem tão difícil de ser localizada vive dessincronizando tudo que nos move lá dentro? 

Eu tenho o mundo em minhas mãos, mas falta algo em meu coração, será? 
Às vezes eu tenho a sensação de que deveria ser mais fácil viver em épocas onde tudo parecia tão mais difícil.

 


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Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: [email protected]



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