Toda essa confiança apenas para esconder o medo de envelhecer

Por: Felipe Sandrin | 20/10/2017 13:47:45

Uma senhora caminha entre as flores da praça, não tem pressa, não consulta o relógio nem usa um celular para registrar o fim de tarde. Nada ali é novo para ela, a posição das flores, a fachada dos prédios, nada disso é suficiente para roubar sua atenção. Há um grupo de garotos na esquina, parecem hostis, mas em nenhum momento ela parece preocupada. Não a abordo, apenas a observo e exercito minha convicção de que ela não teria muito a opinar sobre os assuntos os quais a maioria de nós julgaria como fundamentais hoje. 

Afinal, é a velhice a desistência ou o acostumar-se? Memórias se aglomeram em uma sala na qual mal se conseguiria abrir a porta. Uma bagunça hoje representa o que um dia já foram ideias bem ordenadas, metas, conceitos, certezas, buscas que custaram anos e davam representatividade ao que achávamos ser.
 
Ao assistirmos a um filme europeu, notamos que a velhice conta histórias. Nos desenhos japoneses os grandes mestres e adversários mais difíceis são sempre representados pela sua vantajosa idade. Mas e no Brasil, como tratamos nossos antecessores? Por que a cada década respeitamos menos os que chegaram à velhice? 

Pela primeira vez os jovens acreditam dominar os conhecimentos. Se antigamente precisávamos da experiência para entender o mundo, hoje um garotinho de cinco anos é quem dá aulas aos avós sobre como lidar com o GPS, computador e celular; um garoto ensina sobre como procurar respostas no Google, ensina a tirar fotos, compartilhar vídeos, consultar a previsão do tempo e jogar cartas sem precisar nem sequer de um baralho. Os jovens acham deter o conhecimento, e os idosos, tão dispostos aos espantos da tecnologia, acabam colaborando no Narciso já tão presente nesses jovens. 

Engraçado como aqueles olhos tão cansados não esboçam surpresa, ódio ou decepção. De fato nosso país ficou longe daquele Brasil com o qual tantos sonharam, bem verdade, esse país só andou para trás em seus valores, mas ainda assim se consultarmos os mais antigos não há de fato uma decepção nítida nestes. No geral há apenas uma silenciosa conformidade, como se tivessem aceito que as coisas são o que são, só isso. 

Mudar o mundo é coisa de gente jovem, gente que caminha rápido consultando o celular, gente que precisa correr insanamente até as 19h e antes de ir para casa devem lembrar que a ração do cachorro acabou. 

Essa coisa chamada mundo perde o sentido quando envelhecemos e percebemos que toda aquela revolta, toda aquela ânsia de fazer a diferença era nada menos do que o óleo de um motor parado. Pois, por mais que nossos problemas pareçam mudar a cada século, no fundo lá estão as mesmas velhas e inquietantes perguntas sem resposta. 

Tantas descobertas, tantas revoluções, mas aqui estamos nós, ainda mais inquietos. Se antes esperar uma carta por meses nos deixava na expectativa, hoje, o visualizado e não respondido do WhatsApp nos deixa em uma sensação de vazio sem dimensões. 

Dizem que um brilhante matemático entrou em uma loja de brinquedos para comprar um presente ao seu filho. Ele encontrou um quebra-cabeça, mas ao tentar montar lá mesmo, na loja, percebeu o quanto aquele jogo era complexo. Então disse: – Ei, esse brinquedo é muito difícil. Criança alguma consegue montar isso? Eis que o dono da loja respondeu: – É, ele não é feito para ser montado, ele é feito para ensinar sobre a angústia às crianças. 

Será que as próximas gerações vão andar lucidas por entre praças, sem pressa e sem culpa? Envelhecer requer muita coragem.

 


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Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: [email protected]



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