As cinco fases da dor

Por: Felipe Sandrin | 26/10/2017 15:11:09

Em 1969, em uma brilhante análise, Elisabeth Kübler Ross publicou sobre aquelas que seriam, segundo ela, as cinco fases do luto: negação, raiva, negociação, depressão e aceitação. Obviamente, somos complexos demais para sermos resumidos, mas, tendo esta análise como um norte, podemos perceber claramente – e por diversas vezes – como surfamos através desses cinco estados.

Tenhamos como exemplo os denunciados e condenados do gigantesco esquema trazido à tona pela Operação Lava Jato. Observemos os poderosos homens que por anos desviaram milhões na certeza de que nunca seriam pegos. A forma como eles surgem confiantes logo que são presos, como ficam agressivos após um tempo e, por fim, acabam negociando uma redução de pena e dedurando todos os comparsas.

Vamos para mais perto agora, falar com nosso “eu interior”. Pense naquele emprego que você perdeu ou talvez no último relacionamento que não deu certo. Tente lembrar qual foi a sua sensação inicial, as emoções pulsantes, da forma como pode ter se humilhado negociando uma segunda chance. Lembre-se da profunda tristeza, da depressão e, por fim, pense no hoje. Consegue ver os exageros da época? Se sim, então você entrou na última etapa do luto, a aceitação.

Se fizermos o exercício de expandir a ideia de Ross e nos questionarmos “Em que fase de luto está o povo brasileiro diante da política?”, provavelmente nos depararemos com uma única fase na qual nunca devemos entrar: a aceitação. Nesse caso, aceitação significaria desistir. “Ora, mas se riscamos o fechamento de ciclo dos cinco pontos, então a negação, raiva, negociação e depressão tendem a durar eternamente”. Exato. Talvez seja assim que operemos na escala social: por não existir uma convergência total, sempre estaremos vivendo o luto do nosso país.

A meu ver, o mais importante dentro da pesquisa de Elisabeth Ross é conseguirmos trazer o questionamento para dentro de nós mesmos. Se algo me causa profunda tristeza, se aquela mudança me açoita todos os dias, em que momento de luto estou? Memorize as cinco fases e tente encaixar diante do que você está sentindo.

Viver em equilíbrio não é simplesmente desfrutar de uma paz sonhada. A vida em sintonia requer um encontro entre os diferentes estados aos quais estamos entregues. O luto na poesia serve como sendo o preço do amor, mas pensemos nele como o preço do apego. Tudo que nos traz segurança um dia será luto e, logo, negação, raiva, negociação, depressão e aceitação.


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Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: [email protected]



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