João se mata trabalhando, mas a vítima da sociedade é o assassino

Por: Felipe Sandrin | 17/11/2017 08:00:50

Até quando suportaremos ver o Judiciário soltar bandidos? Costumeiramente nos deparamos com casos como a da menina morta ao dar uma carona em Minas Gerais. O assassino estava foragido após algum juiz decidir que o criminoso não representava perigo e deveria ser incluído nas saídas temporárias. Pergunto: de que servem leis como a Maria da Penha se mesmo após uma mulher relatar inúmeras agressões ainda assim a Justiça resolver deixar agressores livres, leves e soltos?

Um joga a culpa para o outro. Desculpas não faltam. Enquanto isso, o cidadão de bem segue morrendo nas mãos de bandidos que algum juiz decidiu não representarem perigo à sociedade. Até quando?

A população está cada vez mais descrente. Se os ditos cultos e preparados não demonstram força ou mesmo forte intenção de mudanças, então em quem poderemos confiar? É fácil viver de forma blindada, com um carrão à prova de balas, indo do fórum para o apartamento com segurança particular. É fácil fugir da dura realidade do trabalhador brasileiro e chamar de trabalho a soltura de assassinos e estupradores através de argumentos como “as celas estão lotadas”. Falta a realidade ao Judiciário, essas pessoas com salário médio de R$ 25 mil não sabem o que é viver com medo a cada esquina. Tanto não sabem que insistem, dia após dia, no mesmo erro e, assim, perdem a confiança e o respeito do cidadão.

As frentes intelectuais desse país precisam ao menos esboçar e mostrar a mobilização pelas mudanças. A população não tem mais com quem contar, os artistas se tornaram uma massa morta de pessoas que defendem somente os próprios interesses e o governo que pagá-los mais. Professores e policiais seguem abandonados pelo Estado. Enquanto isso os ditos capazes, os estudados, detentores do caminho da moral, esses se calam: não sei se por satisfação e desistência.

E assim mulheres seguem sendo ameaçadas, abusadas, agredidas e estupradas por pessoas que já deveriam estar presas. Todo dia é um medo. Não chega sermos roubados por políticos, e enganados por emissoras de grandes redes, ainda precisamos aceitar que verdadeiros assassinos andem livres, pois algum juiz – amparado pela sagrada lei – assim se fez cumprir.

Está chegando o Natal. Prepare-se, cidadão de bem. Nesta época alguns presos que ganham o indulto precisam fazer um caixa para terem “recursos” quando voltarem à cadeia. O que isso significa? Mais assaltos, mortes e todo aquele medo com o qual já estamos até acostumados.

Se alguém que escolhe matar é uma vítima da sociedade, o que seria então um pai de família que acorda às 6h para trabalhar? Qual o valor de alguém que, com dificuldade, cria os filhos e os educa? Quem zela pelos de bem? Ninguém! Estamos por nossa conta. Foi esse o recado que ao longo dos anos nos foi dado.

Demorou, mas a violência será a grande pauta dos próximos anos. Chegamos ao cúmulo de ver o combate ao crime ser muito mais exigido do que o próprio investimento em educação.

Vivemos no país mais violento do mundo e algumas centenas de pessoas seguem a dizer que a culpa do bandido ser bandido é do João que acorda cedo, dá duro o dia inteiro e luta para pagar as contas no fim do mês.
 


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Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: [email protected]



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