Eu sou chata. Muito chata.

Por: Greice Scotton Locatelli | 17/11/2017 08:00:08

Dizem que “personalidade forte” é uma expressão simpática para descrever alguém insuportável. Para mim, a palavra “chata” é ao pé da letra mesmo. Admito, sou chata em vários aspectos da vida e só quem convive comigo e me conhece sabe como isso é verdade.

Uma das minhas chatices mais fortes diz respeito à preservação do meio ambiente. Tempos atrás, torrei a paciência da gerente da minha conta bancária para que ela cancelasse o envio de extratos impressos para a minha casa. Ora, a cada 15 dias eu recebia um “caderninho” com 8 ou 10 páginas, impressão colorida, grampeado, em um envelope de gramatura grossa. Além do desperdício, visto que para mim não tinha utilidade nenhuma, ainda me dava trabalho na hora de jogar fora em razão dos dados pessoais. Também cancelei todas as faturas impressas, tornando tudo digital. Convenhamos, se a internet nos permite gastar um pouco menos de recursos naturais, por que não usar isso a nosso favor? Alguns poderão dizer que é exagero, que meia dúzia de folhas não fazem diferença alguma. Só que é de uma em uma folha que a coisa sai do controle.

Mesmo recebendo pouca correspondência impressa, temos o hábito de abrir a caixa de correio no mínimo uma vez por semana. Geralmente há cartões de visita anunciando serviços gerais para casa, um que outro informativo, essas coisas. Para ser sincera, recebemos apenas duas correspondências úteis: o boleto do condomínio e o do plano de saúde – são as únicas contas que ainda chegam impressas aqui em casa, por falta de opção.

Eu não sei se é a crise, se é o resultado que esse tipo de propaganda traz ou se é a pressão de final de ano para consumirmos mais e mais. Só sei que, em cinco dias, nossa caixa de correio recebeu nada menos que 19 panfletos, entre os quais três cadernos de ofertas com várias páginas, grampeados. O prédio onde moramos tem 16 apartamentos, ou seja, somente aqui foram mais de 300 publicidades desse tipo entregues nesta semana. Detalhe: várias delas traziam ofertas para um dia específico, ou seja, nem se eu me interessasse teria validade, já que o tal dia já havia passado. Outra anunciava ofertas de um supermercado que fica em Caxias do Sul. Fiquei pensando quantos dos meus vizinhos se disporiam a ir até lá fazer compras, especialmente porque os preços deles, com desconto, eram maiores do que os normais daqui.

Seria hipocrisia minha, como editora-chefe de um jornal que sobrevive de publicidade, criticar esse tipo de divulgação. Mas penso que para tudo tem um limite. Multiplique a quantidade de panfletos que recebemos em cinco dias por um bairro ou por uma cidade inteira e você terá o tamanho do desperdício de papel, afinal, sejamos francos, a maioria vai parar direto no lixo – espero que pelo menos na lixeira certa! Sim, porque outro motivador para a minha chatice ambiental é o fato de muita gente ainda achar trabalhoso demais separar o lixo orgânico do seco. 

Talvez você me prove que publicidade impressa entregue de casa em casa é algo que realmente funciona. Que pagar uma miséria para alguém deixar panfletos em caixas de correio dê algum retorno para as empresas que anunciam – ah, ponto positivo: havia apenas um panfleto de cada, diferente de tempos atrás em que abríamos a caixa de correio e havia uma pilha dos mesmos, tornando aquilo ainda mais inútil. Talvez você me convença de que, apesar da internet e de WhatsApp, receber um monte de papel tenha sua utilidade. Ok. Então que tal as empresas pensarem em otimizar isso, diminuindo o tamanho da folha, ocupando melhor os espaços ou trocando os papéis firmes e brilhosos por algo que impacte menos tanto o orçamento delas quanto o meio ambiente? Ou que tal criar um sistema em que essas ofertas sejam entregues sempre no mesmo dia (e divulgar isso) para que as pessoas aproveitem esse conteúdo?

Pense nisso. É de folha em folha.


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Greice Scotton Locatelli

Greice Scotton Locatelli

 



Editora-chefe do Grupo SERRANOSSA desde 2010, é formada em Comunicação Social - Habilitação Jornalismo, pela Unisinos, e tem na Língua Portuguesa e na Fotografia duas de suas maiores paixões.



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