Onde será o assalto hoje?

Por: Felipe Sandrin | 24/11/2017 07:00:39

O relógio marca cinco da tarde. No balcão, clientes tomam o sagrado café e fazem o costumeiro lanche ao final de mais um dia. Os murmúrios controlados da clientela dão lugar a vozes que anunciam o assalto. Bem, é só mais uma tarde em Bento Gonçalves.

Entenda: não há lugar seguro aqui. E claro que todos nós podemos apontar culpados e desenhar o passo a passo que conduziu aos absurdos. Eu gosto de lembrar um grupo específico de pessoas, aquelas que sempre diziam: ‘Todo lugar é violento’. Nesse quesito me chama muito a atenção o pessoal de Porto Alegre, esses comem o pão que o diabo amassou. Posso destacar, sem sombra de dúvida, que a capital de todos os gaúchos é o lugar mais abandonado, violento e deprimente que visitei nos últimos dois anos. Por coincidência lá também vivem alguns dos mais bairristas cidadãos que conheci.

Terra amada de gente trabalhadora, mas que mergulha no caos e deixa evidente que a situação para os próximos dez anos será calamitosa. Nós, gaúchos, autodeclarados o povo mais politizado do Brasil mergulhamos sem freio rumo à ruína que já tomou, por exemplo, o Rio de Janeiro. O funcionalismo público sucumbe o último fôlego, até os professores que eu cresci vendo sendo apoiados pela população agora encontram a resistência de grande parte da sociedade que contesta a quem estes servem. As universidades públicas que já gozaram de grande respeito hoje são vistas como um centro de formação para o que há de pior. É esse o pé que andamos, uma desconexão se revela iminente, uma grande rachadura interrompeu o discurso de décadas que unia falsos representantes à maioria da população.

A confiança estilhaçou o discurso que permitia cidadãos comuns andarem juntos destes ditos representantes. O solavanco da falida máquina governamental acordou o cidadão comum, aquele que por fim é a verdadeira mão transformadora. Os pais do aluno, o trabalhador que só quer chegar em casa e ter a sensação do dever cumprido. Greves não funcionam mais, elas apenas aceleram o processo dessa desconexão. Por quê? Porque foi percebido que aqueles que reivindicavam ‘ao povo’ na verdade reivindicavam somente a eles: claro que me refiro aqui aos mal-intencionados, não estou a falar dos que são somente ignorantes gritando palavras ufanistas.

O Rio Grande do Sul está quebrado. Mas lá vem alguém dizer: ‘E quem não está?’. Medimos nossa condição pela do próximo. É a felicidade da ovelha ver o lobo devorar outra ovelha. Por isso que quando você está tomando um café e alguém lhe assalta a ideia de não ter levado um tiro surge como fato positivo.

Mas mesmo que você não perca a vida diante os crimes diários, de assalto em assalto, será que não morre o amor pelo lugar que você nasceu e viu se transformar em uma perfeita porcaria? Uma nação é do tamanho daquilo que aceita, talvez por isso lidemos tão bem com a violência. 

Lembro-me de pessoas contanto sobre como seria nosso Estado em dez anos. Pois bem, dez anos depois aqui estou eu, triste por ver que eles estavam corretos e torcendo para que agora eu esteja errado... Mas não estou. Administração é matemática exata. Cada um comerá o pão que lhe cabe, e se lá em Porto Alegre a baguete é enorme, por aqui já começa a sobrar farinha. 

Em dez anos Bento Gonçalves será uma sombra distante daquela cidade que muitos imaginavam como sendo a ovelha longe dos lobos.


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Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: [email protected]



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