A força de acreditar

Por: Felipe Sandrin | 12/01/2017 08:00:49

A vida é frágil. Sabemos e repetimos, mas raramente compreendemos. No dia 29 de novembro de 2016, um fato nos fez novamente encarar a pálida face dessa fragilidade que abraça a todos nós. Lembro que eu estava trabalhando quando as primeiras notícias começavam a chegar, o sumiço da aeronave que transportava o time da Chapecoense era o primeiro susto dentro daquilo que se tornaria uma enorme tragédia.

Pela manhã, as informações já não eram especulativas, sabia-se de fato que quase ninguém havia sobrevivido. Em meio ao turbilhão de sentimentos, a primeira imagem que me veio foi a de Thiego, jogador nascido no mesmo ano que eu, em 1986, uma das vítimas do acidente. Embora já tenha contado esta história no ano passado, acho que ela merece ser relembrada.

Nós nos conhecemos no Grêmio em uma época onde eu estava lançando meu primeiro livro e não tinha onde ficar em Porto Alegre. Era em apartamentos de jogadores da base gremista que eu achava conforto e amigos para me ajudar. Nessa época que conheci o Thiego. Certa noite saímos para comer e ali, em uma mesa de lancheria do bairro da Azenha, ele me contou algo que eu levaria para sempre. 

– Cara, teve uma época da minha vida que pensei em desistir. Minha família contava moedas e eu não tinha nada a não ser um par de chuteiras velhas. O Natal estava chegando e eu sabia que, se minha família comprasse uma passagem para eu ir ficar com eles, então eles não teriam a ceia de Natal. Optei por mentir, disse que tinha um jogo importante e que não poderia voltar. Passei meu Natal e a virada do ano em um dormitório sujo, eu, os beliches e um pacote de bolacha recheada.

Ontem eu estava em frente à TV assistindo ao Grêmio ganhar um dos títulos mais importantes que se pode querer. Torcida eufórica, lágrimas, gritos, fogos iluminando o céu. Se no dia 29 de novembro de 2016 eu sufocava em sentimentos ruins, agora era a alegria que tomava conta de mim.

Tristezas e alegrias. Encontros e despedidas. Toda a essência da vida se demonstrando em coincidências mágicas. Neste que seria um dia para sempre ser lembrado com dor, fez-se uma pequena grande alegria. O adeus de outras épocas se tornou a fé renovada para os dias que ainda estão por vir.

Acontece o tempo todo, com todos nós. Marcas profundas por vezes não nos deixam perceber que toda fragilidade é composta de um material duro, resistente e resiliente. Esse material que ao mesmo tempo expõe nossa fragilidade e força é a matéria que tange a vida e traz a ela um sentido. Uma alegria tem mais força do que mil lágrimas. Um momento único de felicidade tem tamanha potência que por vezes nos sustenta pela vida toda.

Não importa quanto você está deprimido hoje, não importa há quanto tempo seu mundo vem desabando, se você respirar por um segundo o ar traz uma alegre esperança. Pronto, você pode se contaminar de fé para sempre.

O ser humano aprendeu a acreditar. Acredita tanto que vibra emocionado ao som da palavra gol. Acredita tanto que chora enquanto beija uma camiseta. Acredita com tanta força que espera por 10, 20, 30 anos, apenas para gritar: é campeão!

Ah, o ser humano e sua capacidade de produzir esperança. A nossa força de acreditar é realmente incrível!


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Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: [email protected]



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