Ciclos não se fecham quando um ano acaba

Por: Felipe Sandrin | 12/08/2017 08:00:00

É o primeiro dia de 2018, uma nova agenda está sobre sua mesa, suas páginas estão em branco, mas já há compromissos por serem anotados, planos estabelecidos em 2017 que ainda requerem sua atenção.

Em 2017 tive provavelmente o melhor ano da minha vida: mas de onde veio sua mágica? De tudo que plantei. Referente a trabalho lembro-me do quanto planejei e repensei estratégias de carreira. Não sei ao certo em que ano comecei, mas faz tempo. Não, não foi a mística dos números 2, 0, 1 e 7 que fizeram algo por mim, foram as diversas noites em claro trabalhando, as várias horas de estrada, o mergulho em cima de livros enquanto outros no sábado iam para as baladas. Esse ano não foi mágico e incrível por ser um ano especial, ele assim foi porque em outros anos eu segui plantando e acreditando no que um dia viria.

Quando dia 31 o relógio bater meia-noite nada irá mudar, você continuará nos planos de 2017. Nada de melhor repousa em um simples número que se altera de 7 para o 8, netuno não mergulhará no cosmos de júpiter, nem escorpião ascenderá libra. O universo não conspirará ao seu favor se nos últimos anos tudo o que você fez foi seguir esperando por alguma força mística.

Muito observei isso nas pessoas que considero resilientes. Elas gostam sim da sensação do ano acabar, geralmente usam disso para encontrar amigos distantes, fazer uma viagem e esquecer por uns dias a agenda tumultuada que dominará a sequência do ano. Mas não há nada além disso, elas não esperam que o ano seguinte seja melhor por conta de um milagre, uma benção. Elas conhecem suas capacidades, sabem sobre o caminho que estão trilhando e que resultados não escolhem dia, mês ou ano.

E claro que isso também serve para as pessoas mais bananas que já conheci. Gente que, entra ano sai ano, seguem na mesma perspectiva de que o mundo não está sendo gentil e que o sol está de alguma forma sendo impedido de nascer no horizonte de suas estagnadas vidas. 

‘Que tudo se realize no ano que vai nascer, muito dinheiro no bolso, saúde para dar e vender’. Se você acredita que essa canção é mais poderosa do que você começar a fazer exercícios físicos e cuidar de sua alimentação. Se você tem alguma fé que novamente ao cantar algo assim ou pular sete ondas o dinheiro que está no seu bolso vai aprender a ser gerido, então tenho essa péssima notícia que seu 2018 será tão ruim quanto 2017, 2016, 15, 14...

Não, esse mês não fechará um ciclo, no máximo você irá tirar férias e tentar renovar sua paciência. Ainda assim, se optar por não tirar férias, terá de aguentar a falta de interesse das pessoas à sua volta. No Brasil anos demoram a começar, viradas de ano são a desculpa perfeita para quem passa meses em trabalhos forçados e sem perspectivas.

Quer um 2018 diferente? Espero que você tenha trabalhado muito em 2017, caso contrário suas chances de um ‘ano bom’ são tão menores quanto as de ganhar na mega-sena da virada.

Nada muda no ano que vai nascer. Você, o sol e o despertador programado para as 7 da manhã seguem sendo os mesmos.


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Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: [email protected]



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