Tragam um novo salvador, o velho já expirou o prazo de validade

Por: Felipe Sandrin | 26/01/2018 06:00:12

Não é fácil ver ruir o castelo sobre o qual nos criamos: e quando me refiro a um castelo, falo da ideia. A ideia não tem cor, não tem preço, não pode ser adquirida e descartada em um mesmo dia. A ideia nasce primeiramente da negociação para a compra do terreno, então aos poucos consegue-se o material, estuda-se o projeto e inicia-se a construção.
“Como pode ser tão inteligente para algumas coisas, mas tão burro para outras”. Vejam bem, o amor por uma religião, por um partido político, por uma figura, tudo isso não se constrói da noite para o dia. São anos de devoção antes da crença se tornar a ardente fé que negligenciará, inclusive, os fatos. Quando, então, se derruba o mito, ainda assim, dentro daquela pessoa ele permanecerá em pé, pois evoca a fé cega.
Pense, portanto, duas vezes antes de discutir com aquela pessoa que grita: “Mas não há provas”. Entenda que entre os escombros de pensamento perdeu-se a lucidez. E há lógica para isso: a maioria de nós que já vivenciou a perda de algo que nos trazia equilíbrio sabe o vazio que espreita a cruel realidade.
Somos uma geração de brasileiros marcados pelo fracasso, mesmo aquele com a melhor autoestima cresceu sobre os cacos de um país em crise ética e moral. Crer na política e seus representantes é o mais desesperador dos atos. Imagine, então, o ponto que chegou alguém para não só acreditar, mas também defender esses políticos. Mais do que um jogo de interesses é um jogo de mentes corrompidas, pessoas que têm como único pilar a fé cega no seu canalha representante.
Qual a diferença entre religião e política? Que regras mudam no jogo desses poderes? Trata-se de confiar cegamente, de repetir uma mentira tantas vezes a fim de torná-la verdade. Assim, surgem aqueles que pelas ruas protestam por algo que nem entendem. Assim se fazem aqueles que arriscam a própria integridade defendendo incansavelmente outros que nem o conhecem. 
A ideia cresce silenciosamente, ano após ano. Se sobrevive ao arenoso terreno das dúvidas, tende a crescer ainda mais forte. Pronto, agora aquela insistente raiz dá base aos seus frutos, suas convicções, tudo aquilo que você acha ser, tudo aquilo que dá um sentido à sua vida, tudo está fixo à ideia sobrevivente, agora, à sua fé cega.
Por isso, tantos de nós, aparentemente saudáveis, conseguem acreditar em besteiras e iludem-se nas mais toscas mentiras. Por isso que, mesmo diante de diplomas e graduações, o mais brilhante dos seres pode se tornar um total ignorante.
Esse Brasil, em sua esmigalhada autoestima, aprendeu a não acreditar em nada. E o ruim de não se acreditar em nada é que corremos o risco de acreditar em qualquer coisa... até mesmo que exista um salvador para a pátria.
 


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Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: [email protected]com



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