Para perder a fé na humanidade

Por: Greice Scotton | 02/09/2018 06:00:51

Tem dias em que é difícil – quase impossível – não sentir nojo ao navegar na internet. Ontem foi um desses dias. Na timeline do meu Facebook, uma amiga compartilhou uma história que chamou a minha atenção e fez com que eu me questionasse sobre como agiria se estivesse no lugar dela. Era uma postagem sem muita pretensão de uma moça contando que comemorava o aniversário de São Paulo quando começou a conversar com um morador de rua que estava sentado próximo a ela. Conversa vai, conversa vem, eles compartilham uma garrafa de vinho que ela estava bebendo e o senhor pergunta se ela pode ligar para a filha dele, que mora em Santa Catarina. Como ele não sabia o número, a moça decidiu compartilhar a história no Facebook: “Se você for a Elizabete de Joinville que tem um pai chamado Emir, perdido por esse mundão, saiba que seu pai mora no vale do Anhangabaú, acompanhado de Deus e da fé dele, e que ele não entrou em contato com você ainda porque não sabe seu número. Mas ele pensa muito em você”, diz o texto, seguido por um pedido de compartilhamento, que foi prontamente atendido: em poucos dias, o post já havia sido compartilhado mais de 800 mil vezes. 

Só que, como toda repercussão na internet, logo surgem pessoas, digamos, mal-educadas (para não usar palavrões neste espaço). Vou reproduzir alguns comentários aleatórios: 
“O que esperar de uma mulher que toma vinho direto da garrafa, na sarjeta?”

“É compreensível que a filha se afastou deste senhor e inaceitável essa pessoa querer forçar um encontro indesejável.”

“Mendigos são uma tremenda vergonha para qualquer familiar. A filha não vai querer sustentar a cachaça do velho.”

“O mais correto a se fazer seria ignorar o pedido dele. Provavelmente esse senhor infelizmente teve um delírio causado por consumo excessivo de bebida alcoólica.”

“Mais uma aproveitadora fazendo boas ações para ganhar likes em redes sociais.”
“E cadê a filha que não o procura?”

Ok. Cada um tem a sua opinião e ela deve ser respeitada. Mas e quando essa opinião ofende diretamente outra pessoa? E quando alguém que não faz ideia do que se passa na vida de outro ou das circunstâncias que o levaram a tomar determinada atitude age com tanta má-educação e raiva? Eu perco a fé na humanidade quando penso na falta de compaixão e de respeito que comentários na internet demonstram. 

E quem disse que a filha não o procurou? E quem sabe o que levou esse senhor a morar na rua? O que você teria feito se estivesse no lugar da estudante que fez a postagem? Como você age quando está comemorando algo especial – será que não senta na rua com uma bebida qualquer? E se a filha realmente não quiser ter contato com o pai, em função da dependência química? E se for realmente um devaneio dele? O que isso tem a ver com você? 

Não vou tomar partido por entender que o primeiro passo para opinar sobre algo é ter conhecimento de causa e, salvo talvez as duas pessoas diretamente envolvidas – o morador de rua e a suposta filha – ninguém sabe de como essa história chegou a esse ponto. Só acho inadmissível ofender alguém por ter tido a intenção de ajudar alguém necessitado. 

Em tempo... 
A moça que compartilhou a história foi acusada até por ter aparecido na foto em vez de ter publicado somente o rosto dele. E, embora em número infinitamente melhor, algumas opiniões foram bem mais educadas e apoiaram a atitude dela – só não sei se o suficiente para restaurar a minha fé na humanidade. Quanto a mim, não sei se eu teria tido a coragem que ela teve de se expor. Talvez tentasse ajudar de outras formas que não através das redes sociais. Mas é a minha opinião e, como eu disse, cada um tem a sua. 
 


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Greice Scotton

Greice Scotton

 



Editora-chefe do Grupo SERRANOSSA desde 2010, é formada em Comunicação Social - Habilitação Jornalismo, pela Unisinos, e tem na Língua Portuguesa e na Fotografia duas de suas maiores paixões.



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