O Carnaval e o despedaçado espelho dos brasileiros

Por: Felipe Sandrin | 16/02/2018 06:00:03

Eu acabava de voltar de uma caminhada, passava das 21h e, a exemplo de tantos outros lugares, Florianópolis entrava em uma nuvem carnavalesca sombria. O que eu vi pelas ruas? Jovens passando mal. Vomitavam pelas esquinas ao ritmo dos funks infernais que emergiam daqueles veículos bomba. Algumas ambulâncias também passavam por mim, ficava a imaginar quantos ali dentro estariam em algum coma causado por drogas.

Dentro dos ônibus uma cantoria que não respeitava nada nem ninguém, havia garotas com saias tão curtas que bundas se tornavam coisa comum. Havia assédio disfarçado, muito assédio. Pelo menos metade das pessoas que via nesses ônibus demonstrava clara alteração psicológica, garotas com alvos nas costas e homens com semblante de lobos prestes a devorar a Chapeuzinho Vermelho que menos pudesse se defender. 

Não culpo quem não veja isso, quem participa cegamente desse jogo cheio de perigos. Ser perceptivo cobra um preço, vejo perigo a cada esquina, vejo pessoas totalmente alteradas ao volante, vejo o jeito que os caras olham para as garotas, um estupro que começa pelo olhar carniceiro. O homem em seu habitat natural: o Carnaval.

Eu tenho medo do Carnaval, medo pelos caminhos que estamos tomando. O sexo fácil, as drogas fáceis, a famosa liberdade abraçada à libertinagem. Bem, se tudo tem um preço, a liberdade tem o seu. Talvez nunca estivemos tão acorrentados, acorrentados a uma sensação de que o mundo está pendendo para um lado sem volta.

No alto dos meus 31 anos estou velho. Sinto a nuvem tóxica pelo ar, vejo pessoas chorando nas esquinas por uma provável discussão com seus 'parceiros'. Vejo também reconciliações, superficiais é claro, o pior para eles ainda está por vir. Não há amor que resista à falta de sobriedade que se vê nos semblantes jovens.

Isso é diversão? Isso é a nova felicidade? Ou isso é apenas a comprovação de que a depressão, ansiedade, angústia estão vencendo? Nunca pessoas tiraram tanto a própria vida.
Repito: isso é a nova felicidade? Bem, se for eu me permito não entrar no bloco, não participar. Opto pela sobriedade, por acreditar em uma paz duradoura dentro de mim. Não quero ilusões, nem me gabar de histórias onde no final eu me vi vomitando pelos cantos de uma cidade que me desconhece.

Eu escolho um convívio com meu eu mais verdadeiro, talvez, por vezes, seja solitário estar lá, mas tenho certeza que apesar de tudo eu olharei verdadeiramente para mim e o vazio não me alcançará. É isso que buscamos, não? Encarar os piores dias e sentir que sozinhos podemos vencer essa escuridão.

Mais um ano, mais um Carnaval e as mesmas lamentações. Para onde estamos indo? Qual o preço dessa depravada diversão? A cada ano, a cada geração, os limites ficam menos definidos. Aliás, quais os limites hoje? É bem provável que já tenhamos chegado ao lugar que tanto temíamos. 


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Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: [email protected]



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