Não é problema seu!

Por: Greice Scotton Locatelli | 03/01/2018 17:11:46

Uma cantora conta, em uma entrevista, um truque que utiliza para que seu filho, de sete meses, coma frutas. Nada demais, uma decisão pessoal dela e do marido na tentativa de fazer a criança se alimentar. Aliás, nada diferente dos dilemas que quem é pai/mãe enfrenta todo dia não só em relação à comida, mas a tudo que envolve o cuidado com os pequenos. E, diga-se de passagem, nada digno de polêmica. 

Mas, logo a matéria ganha uma repercussão incomum e gera notícias secundárias. A tal cantora sofreu represálias públicas em razão do seu comportamento que tomaram uma proporção além da conta. O motivo? O bebê, que adorava frutas amassadas, de repente começou a resistir e a saída que ela encontrou foi acrescentar pedacinhos de biscoito à papinha. A estratégia deu certo, mas despertou a ira dos “juízes” do Facebook. Logo outras mulheres – que, aliás, deveriam saber melhor do que ninguém que com o acúmulo de funções nem sempre o ideal é possível – começaram a criticá-la porque é inadmissível dar açúcar antes dos dois anos de idade, porque o biscoito contém conservantes, porque o melhor seria que ela plantasse as próprias frutas e por aí vai. A teoria é linda, a hipocrisia também.

As pessoas esquecem que ninguém é perfeito e que o mundo ideal não existe. E, aposto, julgam os outros sem olhar para o próprio umbigo. Na internet tem um meme perfeito para ilustrar a situação, reproduzido ao lado. Na primeira cena, aparece uma mulher grávida dizendo que o filho só vai comer alimentos orgânicos e não vai assistir televisão. Na segunda, ela com a criança no colo gritando para o marido esquentar os nuggets de frango e aumentar o volume do desenho da Galinha Pintadinha. A vida real tem dessas: de tempos em tempos tudo que a gente jurou que jamais faria é exatamente o que fazemos porque as circunstâncias exigem.

 


 

Como mães, empresárias, profissionais, donas de casa, a gente faz o melhor, quando e como dá – e se dá! Não só em relação a filhos, mas a tudo na vida. Claro que se empenhar no trabalho sem estar com o pensamento em casa seria o ideal, tanto quanto não pensar em trabalho nas horas de descanso. Claro que se o dia tivesse 40 horas, em vez de 24, talvez conseguíssemos dar conta de tudo. Claro que um fim de semana de cinco dias seria ótimo. O ideal é lindo, mas, salvo algumas raríssimas exceções, é inatingível. E, acredite, mesmo que tudo isso acontecesse, ainda encontraríamos motivo para reclamar.

Querendo ou não, esse julgamento público acaba com a autoestima de qualquer um. Se ninguém é perfeito, por que seguirmos alimentando esse drama de julgar os outros como se nós não tivéssemos defeito? Admito que criticar quem critica também pode soar como hipocrisia, mas, ter a oportunidade de sensibilizar outras pessoas sobre o assunto, nem que seja por um instante, vale o risco. 

Usemos as redes sociais para algo que realmente acrescente, não como um retrato de desamor, hipocrisia e raiva. Tenhamos a capacidade de nos colocar no lugar do outro antes de sair criticando publicamente, seja um amigo ou alguém famoso. Sejamos mais francos e menos exigentes com nós mesmos e com os outros. É assim que se muda o mundo. E se a tal cantora citada no início do texto quiser dar salsicha moída para o filho, o problema é dela, não seu.


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Greice Scotton Locatelli

Greice Scotton Locatelli

 



Editora-chefe do Grupo SERRANOSSA desde 2010, é formada em Comunicação Social - Habilitação Jornalismo, pela Unisinos, e tem na Língua Portuguesa e na Fotografia duas de suas maiores paixões.



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