Louco por ela

Por: Felipe Sandrin | 03/09/2018 06:00:18

Eu ainda me impressiono com a forma como as mulheres amadurecem tão antes do que os homens. Elas já choram o sentimento enquanto nós ainda fingimos nem sentir. Elas já sustentam um olhar que tudo explica enquanto nós ainda mal conseguimos entender tão profundos olhos. Elas desenvolvem milhares de expressões faciais ao mesmo tempo em que aprendem a ler cada uma das nossas, enquanto isso nós mal conseguimos identificar o não que quer dizer sim, o “vá embora” que significa “fique”.

Woody Allen certa vez foi indagado em uma entrevista sobre por que ele havia se separado de sua esposa, a resposta: “Ela era uma tremenda infantil, certa vez viu que eu me divertia na banheira com meus barquinhos de papel. E ela simplesmente os afundou.”

Eis uma das maiores e mais notáveis capacidades femininas: trazer os homens ao mundo adulto real. Elas nos fazem amadurecer diante das pressões de um mundo cruelmente implacável e nos mostram que se demorarmos a entender esse mundo logo deixaremos de ser o homem que elas escolheram. A mulher é para o homem, além de tudo, uma fábrica de pressão, a pressão que consolida ou estilhaça o diamante.

Submissas? Por quê? Por nos deixarem pensar que temos um controle? Por terem entendido que o homem que não se sente um super-homem se torna quase tão útil quanto o cachorro que abana o rabo no quintal? Elas se adaptam, poucas são as ‘domesticadas’ e quando assim aceitam geralmente colapsam para sentimentos altruístas, aceitam um relacionamento ruim para não prejudicar os filhos, sofrem nas mãos de quem não deveriam porque acreditam no milagre do amor.

Não, elas não são rendidas, elas apenas descobriram atalhos que nós nunca teríamos encontrado. Elas perceberam trincheiras mais seguras do que a nossa vil violência desordenada. Do beijo de boa noite da mãe para o beijo no altar após a frase: “Sim, eu aceito.” Lá estão elas, com seus rostos tão frágeis e enigmáticos. Com sua postura tão complacente ao mesmo tempo em que autoritária.

Por vezes cruéis, assassinas daquilo que poderíamos chamar ‘nossa criança interior’, e o que elas denominariam “infantilidade”. Todo homem que fez, faz e fará grande diferença emerge do símbolo sagrado da mãe ou da esposa. Eis o fogo que forja o aço. Não há outro tão importante quanto a mulher é para o homem.

O que desejar a elas nesse fictício dia 8 de março? Mais liberdade? Justiça? Reconhecimento? Não, elas não precisam de tapinhas ao ombro, nem de desejos de boa sorte, pois o que a elas cabe elas próprias buscam. Sempre foi assim, fizeram do jeito delas e, como sempre, fingiram que era do jeito nosso.

Não há vários tipos de mulher, há sim uma única, lá dentro, intocável, protegida por diferentes armaduras que se adaptam ao tempo, ao lugar e àqueles que a cercam. Frágeis? Só se formos nós nas mãos delas. É apavorante, e ao mesmo tempo extraordinário, estar nas mãos de uma mulher e um dia perceber que a mão dela agora toca a nossa.
 


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Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: [email protected]



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