Para a menina Naiara apenas o silêncio

Por: Felipe Sandrin | 23/03/2018 06:00:57

Uma garotinha desesperada grita, mas ninguém escuta. Não há músicas bonitas tocando ao fundo de um retrato, não há reportagens do programa Fantástico, nem pessoas marchando em praças públicas. Uma garotinha grita, seu assassino já fez isso outra vez, muitos já sabiam o monstro que ali habitava, mas ninguém fez nada.

Enquanto isso no Rio de Janeiro os jornais escancaram o rosto de uma vereadora morta. Seu nome: Marielle. “Morta por policiais”, muitos gritam. Os formadores de opinião e defensores do mesmo sistema para qual Marielle advogava deixam a mensagem nas entrelinhas: “Foi morta por autoridades, por gente de farda”. Não se sabe ainda quem a matou, mas fazem barulho, a mídia estampa as notícias, outros políticos conhecidos por serem defensores de bandidos se pronunciam tristes pela perda de uma “verdadeira brasileira”.

Dois casos e suas notórias diferenças, em um deles uma garotinha de sete anos, Naiara, estuprada e morta por um verme que já deveria estar preso. Um bandido que agora será protegido pelo sistema. Quantas Naiaras tivemos nos últimos anos? Cem, duzentas, quinhentas? Você não sabe? Claro que não, não está na Globo, crianças como Naiara são números, crianças como Naiara são gritos silenciosos. Mas Marielle está lá, seus discursos defendendo regimes que mataram 50 milhões de pessoas pelo mundo agora não importam, ela se torna um rosto de paz esfacelado por um sistema cruel, sistema esse que NÓS, pessoas comuns, já conhecemos. Mas minha morte, a sua morte, a morte de Naiara não faz tanto barulho para que os políticos da extrema-esquerda se manifestem, a morte de 60 mil pessoas não ecoa na garganta daqueles que adoram chamar criminosos de vítimas da sociedade.

Não precisamos comparar mortes, basta compararmos como cada caso é tratado. De um lado um crime não solucionado ao qual artistas e políticos decidem os culpados: ‘Foi a polícia’, gritam. De outro lado um homem que explica friamente sobre como abusou e depois matou uma criança. Diga-me: quantas vezes você viu um político falar o nome de alguém que foi assassinado? De um pai de família, de uma mãe que saiu de casa para buscar o sustento de seus filhos? Não. Para essas mesmas pessoas que gritaram o nome de Marielle, eu e você somos apenas número.

E para aqueles que dizem: “Marielle era a voz dos pobres”, vejam bem: enquanto na Rocinha ela teve apenas 22 votos, no Leblon foram 1.027. Marielle colheu mais 1.900 votos em Laranjeiras e outros 2.742 votos em Copacabana. Na também famosa Cidade de Deus, foram apenas 89 votos. Já na Freguesia, área de classe média alta de Jacarepaguá, a política do PSOL foi a escolha de 707 eleitores. Na Grande Tijuca, Marielle teve um ótimo desempenho: 6.500 votos. No Complexo da Maré, suposta base eleitoral da vereadora, foram apenas 50 votos.

Perceberam? Marielle, a representante dos pobres, não ganhou pelos votos das comunidades carentes, mas sim pelos votos das partes mais ricas do Rio de Janeiro.
A menina Naiara é o verdadeiro rosto da violência no Brasil. Ela sim nos representa. Assassinada por um sistema que devia nos proteger, morta por alguém que foi solto por essa fajuta Justiça que hoje beneficia criminosos.

Naiara e seu grito silencioso, o verdadeiro grito dos brasileiros, um grito sufocado pela injustiça que agride pessoas comuns, pessoas que só querem trabalhar, sonhar e pagar seus impostos em dia.

Para mim, Naiara é o real retrato das pessoas de bem, seu grito abafado é nossa rotina e o silêncio das grandes mídias só demonstra o porquê chegamos ao fundo desse poço de lamentações. 
 


É proibida a reprodução, total ou parcial, do texto e de todo o conteúdo sem autorização expressa do Grupo SERRANOSSA.

Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: [email protected]om



O SERRANOSSA não se responsabiliza pelas opiniões expressadas nos comentários publicados no portal.



Leia a Edição
IMPRESSA


Edição 660
18/05/2018
Edições Anteriores

Curta o SERRANOSSA