As fake news e a vida real

Por: Greice Scotton Locatelli | 29/03/2018 09:23:19

Como qualquer pessoa “normal”, sinto um nojo profundo quando ouço histórias de abuso sexual, especialmente as que envolvem crianças – às vezes bebês! Infelizmente, são muitas e algumas acontecem bem perto da gente. Na semana passada, o trágico desfecho do caso Naiara, em Caxias, foi uma dessas reportagens de revoltar o estômago. Graças à rapidez e inteligência de todos os órgãos de segurança envolvidos foi possível saber o que realmente aconteceu com a menina, mesmo sem pistas óbvias, e prender o responsável 13 dias após o desaparecimento dela. Aos sete anos, Naiara foi (provavelmente) estuprada e morta por um homem de 31 anos – “provavelmente” porque a investigação ainda está no começo e pode apontar outros detalhes e porque uma pessoa só pode ser formalmente acusada após uma investigação, um inquérito e um julgamento e depois de esgotados todos os recursos previstos em lei. O mesmo homem é acusado de outro estupro no ano passado, de uma menina de 9 anos, que sobreviveu. Como você deve ter acompanhado, foi graças ao primeiro ataque que a polícia chegou a ele.

Não vou entrar no mérito de que a sociedade falhou com Naiara (embora concorde), porque se fosse tão simples assim de resolver já teria sido feito. Soluções mágicas não existem, mas pessoas maldosas, sim. O consolo – se é que pode ser chamado assim – é que foi um desaparecimento do qual se teve respostas. Você sabia que, a cada ano, 40 mil crianças e adolescentes desaparecem no Brasil sem qualquer notícia que indique o que ocorreu com elas? Há casos, inclusive, em Bento Gonçalves, como o do jovem Cleber Giazzon, que sumiu em 2002, aos 16 anos. Foi uma das primeiras ocorrências desse tipo que cobri na minha carreira como jornalista e lembro o quão consternada eu fiquei ao ir até a casa dele e ouvir familiares. Nenhuma das poucas pistas que os investigadores receberam surtiu efeito.

Passados 16 anos do desaparecimento de Cleber, muita coisa mudou. Uma delas, que tem participação fundamental no contexto, é a internet. Uma grande mobilização se formou em torno do sumiço de Naiara e poderia muito bem ter resultado em pistas concretas – nessas horas, quanto mais gente de olho, melhor. Só que, como em diversas outras situações, muita gente acaba atrapalhando, justamente na ânsia de ajudar. O delegado responsável pela investigação lamentou o tempo perdido atrás de pistas falsas repassadas pela comunidade. Todas, sem exceção, foram verificadas pelos agentes, mas nenhuma delas era concreta.

O mesmo ocorreu com o tal assédio a uma menina de 10 anos em um ônibus de Bento, no final da última semana. Muitas pessoas divulgaram o caso e repassaram fotos (inclusive com o rosto da menina aparecendo, o que é terminantemente proibido pelo Estatuto da Criança e do Adolescente) sem que nada estivesse confirmado. Fofoca em grupo de WhatsApp não é notícia e, antes de repassar, é preciso pensar nas consequências. E não, não estou defendendo o tal rapaz que supostamente molestou a menina. Só estou dizendo que antes de sair espalhando (e aumentando) as histórias é preciso cautela, tanto quanto na hora de passar informações sobre crimes à polícia.

Acredito que seja necessário bastante tempo e esforço para que as pessoas entendam que não dá para acreditar em tudo que se lê na internet.  Aliás, imagino que somente a criminalização do repasse de informações falsas que denigrem e colocam em risco a vida das pessoas possa ser uma saída.

Só para lembrar, em 2014 uma mulher de 33 anos morreu espancada em São Paulo depois que uma pessoa parecida com ela foi acusada de sequestrar uma criança e a foto circulou nas redes sociais. Podia ser a sua foto. Podia ser a minha. E em poucos minutos, a vida de um inocente vira um inferno porque alguém quis chamar atenção no Facebook ou no WhatsApp. Pense nisso.
 


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Greice Scotton Locatelli

Greice Scotton Locatelli

 



Editora-chefe do Grupo SERRANOSSA desde 2010, é formada em Comunicação Social - Habilitação Jornalismo, pela Unisinos, e tem na Língua Portuguesa e na Fotografia duas de suas maiores paixões.



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