Parece adulto, mas ainda acredita no coelho da Páscoa

Por: Felipe Sandrin | 29/03/2018 09:25:31

A ideia entra na sua cabeça e por lá permanece. Silenciosamente ela fabrica as próprias peças de um quebra-cabeça e nos leva finalmente à crença. Agora você crê, boa parte dos seus pensamentos e convicções usa como base aquela ideia que se tornou uma certeza. Os anos passam e lá está sua crença, agora ela faz parte de sua identidade e livrar-se dela não é mais uma simples questão de querer. A ideia se tornou parte de você, que já não se reconhece sem ela.

Religiões, partidos políticos, times de futebol. Parece tão fácil para alguns reconhecer um criminoso, mas por que para outros é inadmissível a ideia de que aquela idolatrada figura seja apenas mais um criminoso manipulador? Tão fácil perceber seus crimes, tão notória a picaretagem, mas para seus amantes nada será suficiente. “Como posso assumir que aquele homem que acompanho há vinte anos seja um bandido como tantos outros que eu odeio?”.
Uma ideia, simples, por vezes desconfiada, mas quando ela cresce dentro de nós, quando movidos por algum desespero, nos agarramos a aquilo.  Pronto, inicia-se o processo de fanatismo. Agora você não sabe mais onde termina você e onde começa sua crença. Você lutará por aquilo, perderá amigos se preciso for, perderá até mesmo a noção do ridículo, se apoiará em fantasias e, quando outros avistarem você, o primeiro comentário será “olha lá o doente”.

Eu poderia aconselhá-lo aqui para não ser essa pessoa, o fanático, o doente. Mas que outro paliativo de uma provisória sanidade eu poderia entregar? O desespero transforma as pessoas. A crença de que a justiça tenha um rosto, a esperança de que as palavras pronunciadas em microfones sejam verdadeiras. A falsa e tão necessária sensação de que nós somos diferentes, de que em nós reside a ética, a índole e a verdade. Somos deuses aos nossos próprios olhos, por isso defendemos nossas crenças com unhas e dentes. Temos a plena certeza de que nós agimos corretamente e os outros são apenas pessoas corrompidas.
Quando você se torna sua crença, não importa quantos crimes lhe apontem, você seguirá como o mais fiel advogado do diabo. É preferível muitas vezes a morte à admissão dos pecados. E, de fato, renegar algo que por tanto tempo foi uma certeza é uma sensação de quase morte.

Cuidado, portanto, ao iniciar uma discussão. Lembre-se que nem sempre um ponto de vista é apenas isso para o outro. Talvez você esteja a criticar o terreno sobre o qual essa pessoa ergueu seu castelo, o castelo de uma vida inteira, um castelo que, apesar de ter seu berço em ignorância, ainda assim se constituiu como se fosse a mais sensata das esperanças para essa pessoa.

Diversas pesquisas já apontaram o brasileiro como sendo um dos povos mais manipuláveis do mundo. O maior exemplo do nosso grau de imbecilidade talvez esteja nas universidades, onde aqueles tão sábios jovens – que se julgam detentores de todo o conhecimento – são usados feito maltrapilhos fantoches em um teatro falido.
Quando então você novamente se questionar “Como essa pessoa pode ser tão burra acreditando nisso?”, lembre-se de duas coisas: 1) A crença é uma doença que cega. 2) Talvez o doente seja você.
 


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Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: [email protected]



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