Nós criamos nossas próprias prisões

Por: Felipe Sandrin | 04/06/2018 06:00:29

São mais de dez anos escrevendo a este jornal, por quantas vezes falei de Lula? Não lembro, mas certamente o ataquei mais do que ataquei qualquer outro político. 

Eu cresci ouvindo discursos apaixonados de petistas, nos locais em que frequentava e até nas escolas onde estudei Lula e o PT sempre eram citados em uma aura revolucionária e quase mística. Como eu poderia fugir de uma admiração junto daquele barbudinho simpático?  Quando eu pude finalmente votar em uma eleição presidencial eu não tive dúvidas, meu voto foi dele.

É fácil não gostarmos de alguém sem qualquer evidente motivo ou ótima justificativa, assim não gostamos de muitas pessoas durante a vida: não gosto porque não gosto e ponto. Porém, necessita-se de muito mais para que o simples não gostar se torne guerra declarada. Há então forma mais eficiente de criar-se um inimigo do que através da traição? 

Lula talvez tenha sido minha primeira esperança na política. Em tempos em que eu me sentia como um jovem revolucionário capaz de mudar o mundo a figura dele era o ponto perfeito para a rebeldia. Lula exercia esse poder sobre jovens, ele canalizava nosso pior lado e fazia-nos acreditar que assim éramos porque éramos pessoas do bem. E se a nós cabia a bondade, logo os contra nós eram os maus.

Eu tive sorte, não demorei a perceber o mal que nos faz depositar a culpa do tiozão com uma camisa do PT e um discurso fracassado de: ‘ninguém fez tanto pelos pobres como ele’.

Sinceramente acredito que a maioria das pessoas busca o poder com uma boa intenção, aos poucos, porém, percebemos que adquirir poder significa precisar ceder de nossas convicções, abrir pequenas exceções, aceitar que não poderemos mudar as engrenagens da máquina. Logo nos vemos aceitando o primeiro suborno, o segundo, o terceiro e sem perceber nos tornamos uma engrenagem do mecanismo que jurávamos querer destruir.

Não há espelho mais revelador do que o poder, nem há mais cruel face do que a nossa manchada por aquilo que jurávamos que nunca nos tornaríamos. Questiono-me por vezes: Será que Lula lamenta seus crimes? Será que ele pensa nos caminhos errados que escolheu? Mas então lembro sua face, um olhar cego, um personagem que já não permite visitas ao homem por debaixo da máscara. Eis o semblante de um homem que não lamenta o que fez, mas sim o que deixou de fazer, quem deixou de calar, quem ele deixou de pagar para que as coisas não chegassem a esse ponto.

Não há lamentações para o crime quando você se incorpora à sua própria mentira. Repita milhares de vezes que você é justo e assim você se tornará justo para si, mesmo sendo o pior dos tiranos.

Lula é apenas mais um produto do sistema, porém, seu crime é ainda mais grave do que o dos demais políticos sujos que nos rondam. Lula é vítima de seu próprio disfarce, vítima da armadura que ele próprio criou a fim de nos enganar. E eis o preço da admiração e da esperança, pois quando você quebra essa confiança ela nunca mais se reestabelece e os cacos que sobram acabam por se tornar o instrumento de seu próprio agonizante fim.

Muitos dos que hoje odeiam e esperam ansiosos por ver Lula na cadeia um dia também o quiseram ver presidente. Seu principal crime, talvez? Ter-nos feito acreditar que ele não era como todos os outros sujos que sempre nos cercaram.
 


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Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: [email protected]



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