Dos modismos nossos de cada dia

Por: Greice Scotton Locatelli | 19/04/2018 16:55:35

Você se considera ansioso? Saiba que você não está sozinho. Também pudera: como não ficar ansioso em tempos de tamanha correria e pressão? Eu trato ansiedade desde sempre e posso afirmar com convicção: é uma luta diária. Esse sentimento tem tirado o sono de muita gente, provocado crises graves que podem ser confundidas com situações potencialmente fatais, como infarto, e feito cada vez mais pessoas buscarem auxílio médico ou, pior, se automedicar buscando “desacelerar”. 

Claro que o simples modismo pode ser um dos motivos que fazem com que os remédios desse tipo se esgotem cada vez mais rápido nas prateleiras das farmácias. Virou sinônimo de “charme” alguém dizer que sofre de ansiedade para justificar algum comportamento que não corresponde ao que a sociedade tem como ideal. Não consegue dormir à noite? Ansiedade. Come demais? Ansiedade. Rói as unhas? Ansiedade. Tem dificuldade de concentração? Ansiedade. Esqueceu um compromisso importante? Ansiedade. A solução? Remédios, muitos remédios: para dormir, para acordar, para comer menos, para relaxar. 

Há poucos dias li um texto no Facebook bastante triste, mas real. O suposto autor (Dr. Carlos Bayma – suposto porque é bem difícil se ter certeza sobre o que está na internet) descreve a “saúde” de alguém que começou a tomar medicação e como um problema gera outro e esse ciclo jamais termina. De forma resumida: aos 30 anos você tem uma tristeza persistente e o médico prescreve Fluoxetina, que dificulta seu sono, então você compra Clonazepam, mas que te deixa meio bobo ao acordar e reduz sua memória. Então entra em cena a Sibutramina porque você engordou. Ela até o ajuda, mas provoca taquicardia. Sua pressão fica mais alta e você se vê obrigado a tomar Losartana e Atenolol. 

Chegando aos 35 anos, você toma cinco remédios fortes, além das vitaminas e de toda sorte de produtos cuja propaganda promete milagres – e que não precisam de receita médica. Entretanto, você ainda continua deprimido, cansado e engordando, com memória e concentração ineficientes, preocupado com a conta da farmácia que não para de aumentar, sem contar as doenças provocadas pelo seu estilo de vida ou questões hereditárias, como diabetes, hipertensão, câncer. Doente, apesar de tanto remédio, muitos deles simplesmente desnecessários. 

O modismo mantém a indústria farmacêutica como uma mina de ouro. Mas tem um lado bom: quanto mais “doentes”, mais produtos surgem para atender a demanda, especialmente no ramo dos gêneros alimentícios. E aí vai mais um exemplo pessoal: tenho intolerância grave à lactose há cinco anos. Quando descobri, a única alternativa aos produtos lácteos era o leite de soja – hoje as prateleiras dos mercados têm opções para quase tudo: de iogurte a creme de leite, passando por misturas para bolo e biscoitos, além do próprio leite. Quando fui diagnosticada, a única pessoa que eu conhecia com tais restrições era um primo que sofria com o problema desde criança. 

Minha rotina mudou drasticamente, mi¬nha vida social ficou bastante restrita (para não dizer nula), precisei adaptar meu dia a dia – e consequentemente o da família toda. Você sabe quantas pessoas eu conheço, hoje, que se dizem intolerantes à lactose? No mínimo 20. Sabe quantas têm um diagnóstico médico? Nenhuma. “Viraram” intolerantes para fins estéticos, por modismo, sem orientação médica – e, de quebra, acham o máximo. 

Sinceramente? Poupe-me. Aliás, poupe-se. Isso pode trazer problemas irreversíveis de saúde. 

Restringir a alimentação de forma drástica sem necessidade é tão grave quanto tomar remédio para ansiedade simplesmente porque você quer uma saída rápida para um problema cuja solução não é nem nunca será tão simples. Menos modismo, mais autoconhecimento, mais consciência.
 


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Greice Scotton Locatelli

Greice Scotton Locatelli

 



Editora-chefe do Grupo SERRANOSSA desde 2010, é formada em Comunicação Social - Habilitação Jornalismo, pela Unisinos, e tem na Língua Portuguesa e na Fotografia duas de suas maiores paixões.



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