Pão, mortadela e um teto prestes a ruir

Por: Felipe Sandrin | 05/04/2018 06:00:18

9h, um ônibus estaciona em frente a um prédio que está caindo aos pedaços. Uma fila já está formada. Antes de entrar no ônibus, cada pessoa recebe um colete vermelho, as iniciais CUT estampam as vestimentas dessas pessoas que nas próximas horas vão ser encaminhadas a um protesto.

Pão, mortadela e R$ 20. Engraçado? Não deveria ser. Ao que o Estado é negligente, os aliciadores não são. Assim surgem esses subgrupos, entre os gritos de “você tem direito a terra, a um teto, a comida e a trabalho”. E quem não concorda com isso? Mas a ideia do ter é muito mais sedutora do que a ideia do “como?”. Nenhum desses aliciadores explica com exatidão como chegamos a essa utópica igualdade. E por que o fariam? O aliciador vive dessas pessoas e da amaldiçoada ignorância.

Um prédio em chamas desaba, quem lá morava? Pessoas que sustentam esses subgrupos. Lembre-se: por trás do “você tem direito a isso” existe alguém que está ficando rico. Quem coordena o sistema de ocupação desses prédios obviamente não mora neles. Aperto de mão, imagem surrada, camisa com gola torta, visual padrão de quem discursa para movimentos como MST e MTST, mas por trás disso muito dinheiro segue rolando. Já pensou se todas essas pessoas que vão para a rua quando o partido manda estivessem trabalhando? Quem então entoaria os cânticos e faria protestos?

Imposto sindical e sindicatos: para quê? Para quem? Para encher o bolso de alguns poucos com o dinheiro de muitos. Exploração disfarçada de “estou aqui para ajudar você”. Não duvido que tenha começado com uma boa intenção, mas a intenção geralmente dura até a primeira nota de R$ 100 parar no bolso do “líder do movimento”. Logo a desculpa será de que é preciso ter mais dinheiro para se fazer mais. Mas, afinal, alguém viu algum “Zé” ser preso com Lula? Nada disso, os “Zés” estão lascados, catando emprego ou acordando às 6h da matina para pegar o “busão”. Nada de “Zé” ao lado de seu Luiz Inácio, ao lado dele só os “mega-ultra-super” empresários capitalistas. Milionários desde sempre, nomes importantes e empreendimentos que, se enfileirados, sumiriam no horizonte.

Um prédio incendeia e cai. Dentro dele, miséria e pobreza. Mas alguém ganhava, e ganhava bem. R$ 400 por mês era obrigação de quem lá queria estar: dinheiro fácil se você tiver uma boa equipe para expulsar quem tentar não pagar. Mais uma vez: onde o Estado não opera, alguém o fará.

E assim foi. Quem afinal ousaria dizer algo contra essas pessoas e suas nobres intenções? Há alguns anos, seria loucura pensar que tantos ganhariam a vida explorando pessoas que já não tinham nada. Aí surge a verdadeira imprensa livre e a internet. E em meio a tanta coisa falsa, surgem muitas outras verdadeiras – que de tão absurdas preferiríamos que fossem falsas. Caem máscaras e percebemos: aquele cara com rosto de gente do povo e gola surrada é, na verdade, o pior de todos. Ele está no meio do povo, ele parece o povo, mas ele não é o povo. Ele é a mordida que infecta outros, mas de algum modo ele não pode ser contaminado: os zumbis não o atacam, não o percebem nem percebem que operam ao bel-prazer desse ser que lhes explora tanto quanto os declarados inimigos.

Um pedaço de pão e um buraco como morada. Parece pouco, mas para quem não tem nada já serve. É ali que nasce a exploração: não no capitalismo, mas, sim, na concentração de poder a quem finge querer distribuir. Logo o Estado irá explorá-lo ainda mais e será cada vez mais omisso, pois em breve líderes surgirão dos discursos de libertação. É sempre assim. E com o tempo a gente esquece que liberdade não vem acompanhada de mortadela e pão.  
 


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Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: [email protected]



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