Mais respeito, por favor!

Por: Greice Scotton Locatelli | 05/11/2018 06:00:27

Eu era criança quando o namorado de uma prima que morava ao lado da minha casa morreu em um acidente de moto. Eu não vi o corpo – meus pais nem permitiram que eu fosse para o velório. Eu convivia com ele e sentia saudade. Mas a única lembrança que eu tenho dele é o que eu imaginei em relação a como ele morreu com base nas histórias que eu ouvi dos adultos: uma moto amassada e uma pessoa deitada no chão. Nada de sangue ou destroços. E mesmo assim aquele acidente me marcou profundamente.

O zelo dos meus pais evitou que uma criança tivesse contato desnecessário com a morte e agradeço por isso. Poucos anos mais tarde, já na adolescência, eu seria obrigada a ter contato com ela após um acidente que tirou a vida do meu dindo e, poucos meses depois, após vários outros que mataram um colega querido de escola e outros adolescentes conhecidos meus – lembro da minha avó dizendo que, aos 16 anos, eu estava enterrando mais gente do que ela, com quase 75 – ela sempre disse que havia algo sinistro nisso, um sinal de que o mundo não estava seguindo seu rumo normal.

O tempo passou e a profissão que escolhi acabou me colocando de novo em contato com a morte. Nos tempos em que mais gente morria no trânsito do que vítima de homicídio em Bento, cheguei a fotografar e cobrir mais de 300 acidentes em um único ano. Portanto, por força da profissão, já vi muito mais gente machucada e morta do que gostaria e tive experiências desagradáveis nas vezes em que precisei fazer fotos dos corpos a pedido de policiais para anexar às investigações. De algumas cenas eu lembro até hoje – conscientemente ou em pesadelos.

Sabe o que eu fiz com essas fotos horrendas? Entreguei às autoridades e apaguei. Simples assim. Não é o tipo de lembrança que eu queira ter. É mórbido, triste e inútil.

Apesar de toda essa vivência, que deveria ter me deixado “blindada”, no ano passado fiquei muito mal depois de parar para socorrer um motociclista que sofreu um acidente perto de onde eu estava passando e de vê-lo morrer enquanto aguardava pelo socorro. Foi bem difícil apagar da minha mente o rosto dele no momento em que parou de respirar. Ironicamente, eu teria tudo para ter dado um “furo jornalístico”, afinal, fui a primeira pessoa a chegar ao local. Mas na hora eu só pensava em quem estava em casa, esperando por ele. Nada mais. O “ser humano” Greice foi muito maior do que a “jornalista” Greice. E não tenho problema nenhum em admitir isso.

Todo esse turbilhão emocional voltou à tona na última semana, quando um acidente no centro vitimou um motociclista que havia ido buscar a filha na faculdade. Com a frente cortada por outro carro, ele foi jogado contra uma grade de proteção para pedestres e morreu instantaneamente. A cena foi horrível, digna de náusea.

E em meio a essa tragédia, houve quem se aproximasse da cena para fotografar o corpo de todos os ângulos e compartilhar em grupos de WhatsApp e no Facebook. Como se não bastasse, algumas pessoas comentaram com “carinhas de gargalhada” porque acharam a cena engraçada.

Também houve quem levou crianças para assistirem ao “espetáculo”. Pais, avós, tios, dindos, quem quer que seja: inevitavelmente essa criança vai acabar sendo obrigada a ter contato com cenas envolvendo morte em algum momento da vida. Enquanto puderem, mantenham-na longe disso – sobretudo em cenários tão traumáticos e horrendos quanto um acidente fatal.

Aos demais, que fotografam, compartilham e até riem da vítima, se coloquem no lugar da família. E se fosse seu amigo, seu pai ou seu filho? Você gostaria de receber fotos dele morto? Imagino que não! Então, por que você acha que outras pessoas gostariam? Quem morre em acidente é amigo de alguém, filho de alguém, pai de alguém.

Enquanto não houver mais empatia, as redes sociais continuarão mostrando o pior lado dos “seres humanos” – se é que pessoas que fazem isso podem ser chamadas assim.


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Greice Scotton Locatelli

Greice Scotton Locatelli

 



Editora-chefe do Grupo SERRANOSSA desde 2010, é formada em Comunicação Social - Habilitação Jornalismo, pela Unisinos, e tem na Língua Portuguesa e na Fotografia duas de suas maiores paixões.



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