Raiz x Nutella

Por: Greice Scotton Locatelli | 18/05/2018 06:00:35

Você sabe aquela brincadeira que circula nas redes sociais do raiz x Nutella? Raiz seria o autêntico, antigo, enquanto Nutella (marca de creme de avelã) representa a “frescura”. Ela também se aplica ao jornalismo.
Comecei minha carreira em 1999, poucos meses depois de entrar na faculdade de Comunicação Social. 

Como uma apaixonada pela escrita que sempre fui, havia me destacado em um concurso de poesias em nível nacional e fui chamada para dar uma entrevista para um jornal. Chegando lá, o então diretor gostou do meu currículo e me convidou para um teste. Foi assim que tudo começou.

Eu tinha 18 anos, uma esperança enorme de mudar o mundo e uma vontade louca de fazer a diferença. Embora a vida tenha me ensinado a baixar (bastante) as expectativas, sinto que venho cumprindo minha missão desde então, a cada reportagem, devagarinho, tentando agilizar a resolução de um problema por vez, ajudando alguém sempre que possível. Às vezes, sinto falta daqueles tempos em que tudo era mais difícil, mas ao mesmo tempo mais simples.

Quando comecei minha carreira, a internet já existia, mas não estava difundida. Ou seja, não havia ferramentas como Google, Facebook ou WhatsApp. Buscar um texto na internet, copiar e colar? Nem em sonho! Se quiséssemos “copiar” algo, era digitando o texto todo. Se precisássemos de alguma informação, era necessário ir até a Biblioteca Pública, buscar em livros.

As fotos eram um desafio ainda maior. Somente os jornais tinham câmeras semiprofissionais capazes de produzir fotos com a qualidade necessária para serem impressas, mas eram totalmente analógicas, dependiam de filme. Era caro, muito caro. Fazer uma foto bacana exigia muito mais do que inspiração: começava desde saber o colocar o filme da forma correta até ter sempre uma pilha daquelas de relógio reserva porque algumas câmeras não ligavam sem o “fotômetro” alimentado por essa bateria. Raramente terminávamos um filme antes de revelar as fotos. A regra era capturar a melhor imagem possível com o mínimo de cliques. E como precisávamos das imagens logo, não dava para esperar as 36 poses do filme acabarem. A saída, então, era abrir antes (rezando – muito – para não queimar todas já feitas) e depois cortar o negativo e reencaixá-lo, torcendo para que tivesse dado certo. Só saberíamos na próxima abertura da câmera. Ou seja, além de fazer tudo às cegas (nada de visor automático como existe hoje) e com regulagem manual, ainda corríamos o risco de encaixar errado o filme cortado e perder as fotos novas que fizéssemos. Adrenalina pura!

O desafio seguinte era encontrar algo no banco de imagens, tão “analógico” quanto as câmeras da época. Todas as fotos eram impressas e ficavam em um armário grande de metal em pastas de papel, separadas por assuntos. Mesmo assim, era como procurar uma agulha em um palheiro. Atrás delas, escrito a mão, ia a data e o nome do fotógrafo. Ai de quem tirasse uma foto do lugar certo e não recolocasse. Era confusão na certa, eram muitas fotos!

Hoje em dia qualquer pessoa tem um celular, faz uma foto e em poucos segundos ela está disponível na internet para quem quiser ver ou compartilhar. Simples assim. Qualquer pessoa semialfabetizada e com algum domínio de informática pega um texto, copia, cola, assina como se fosse seu e se diz jornalista. Com as fotos, a mesma coisa. 

Parte da essência do jornalismo se perdeu com as redes sociais e com o acesso à tecnologia. Ao mesmo tempo, isso trouxe mais agilidade e simplificou infinitamente os processos. Também permitiu uma interação nunca antes imaginada entre quem faz a notícia e que a lê – o que nem sempre é positivo, já que a internet também deu voz a muita gente sem noção. Os tempos eram incomparavelmente mais difíceis (e olha que nem eram tão antigos assim), mas de vez em quando bate uma saudade daquele jornalismo trabalhado em sangue, suor e lágrimas (mais raiz, menos Nutella).
 


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Greice Scotton Locatelli

Greice Scotton Locatelli

 



Editora-chefe do Grupo SERRANOSSA desde 2010, é formada em Comunicação Social - Habilitação Jornalismo, pela Unisinos, e tem na Língua Portuguesa e na Fotografia duas de suas maiores paixões.



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