Enxugando gelo

Por: Greice Scotton Locatelli | 25/05/2018 06:00:06

Eu não sei se é apenas uma impressão minha, mas tem algo incoerente quando o assunto é economia. 

As manchetes nacionais falam em retomada gradual, na mesma linha de discurso de muitas autoridades de diferentes setores. Na televisão, propagandas de montadoras de veículos anunciando que a crise passou e que é hora de comprar um carro novo, manchetes de jornais garantindo que os juros estão estagnados, que é um bom momento para adquirir a tão sonhada casa própria. Nas vitrines, liquidações, condições facilitadas, pagamentos a perder de vista, em um horizonte tão distante quanto o prazo do cheque pré-datado que alguns mercados oferecem: compre agora e pague somente em novembro (como se até novembro não fôssemos precisar fazer compras e isso não fosse virar uma bola de neve interminável). Percebe-se um aumento da demanda por mão de obra – depois de muito tempo, conversando com pessoas responsáveis por contratação em empresas e observando as redes sociais, a impressão que se tem é de mais gente contratando do que buscando emprego. 

“A crise passou, o Brasil está retomando o controle” – é nisso que querem que a gente acredite. Na prática, entretanto, não vejo nada muito além de um otimismo infantil que seria cômico se não fosse trágico.

Se você, como eu, é o responsável pelas compras de supermercado na sua casa, talvez entenda melhor essa minha inquietação. Se a inflação recuou, os juros estão menores, a economia está crescendo, o número de empregos também, por que está cada vez mais caro comer? Faça o teste: em alguns supermercados, os preços vêm sendo reajustados pelo menos uma vez por mês. E não é coisa de centavos. 

Não sou especialista na área – bem longe disso –, mas como consumidora e jornalista, converso com muitos comerciantes e percebo um misto de otimismo com receio generalizado. 

Outro exemplo: combustíveis. Minha aposta (antes da greve dos caminhoneiros) era de que chegaríamos ao final deste ano com o preço do litro da gasolina batendo a marca dos R$ 5. Digo “era” porque o receio do desabastecimento fez com que centenas de motoristas se aglomerassem em filas intermináveis ao mesmo tempo em que alguns empresários do setor, sem o mínimo pudor, reajustaram os preços em questão de horas. E não foi pouca coisa: em um dos postos por onde passei, a gasolina comum passou de R$ 4,59 às 10h para R$ 5,19 às 15h.

Claro que os últimos dias foram de exceção e angústia – encontrei pessoas em supermercados comprando comida e água para estocar como se estivéssemos em estado de guerra. A mobilização – justíssima – mostra o quanto o setor de transportes é imprescindível para um país como o nosso. Entretanto, o risco de desabastecimento também expõe um lado ganancioso que em nada combina com a ideia do protesto.

A vida é feita de escolhas e lições e penso que uma delas devemos aprender de uma vez por todas: é preciso cautela na hora de acreditar no otimismo generalizado que algumas empresas e o próprio governo tentam impor através de propagandas. Cada um sabe da sua realidade e isso deve embasar a decisão de comprar algum produto – sobretudo bens duráveis (carro, casa, produtos de maior valor). Você pode me chamar de pessimista, mas prefiro tentar frear esse pseudoentusiasmo com uma pitada de realismo do que, daqui a um tempo, ter que escrever uma coluna falando sobre pessoas deprimidas por terem – de novo – acreditado em uma melhora e caído na tentação de consumir mais do que podem pagar.

Assim sobrevivemos: um dia de cada vez, adaptando a rotina, fazendo planejamento e comprando o que dá, quando dá, se dá. Mas a sensação permanente de que estamos “enxugando gelo” é uma realidade na maioria dos lares, por isso, todo entusiasmo deve ser filtrado para não cairmos na armadilha do consumismo desenfreado – mais uma vez. 


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Greice Scotton Locatelli

Greice Scotton Locatelli

 



Editora-chefe do Grupo SERRANOSSA desde 2010, é formada em Comunicação Social - Habilitação Jornalismo, pela Unisinos, e tem na Língua Portuguesa e na Fotografia duas de suas maiores paixões.



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