O câncer da falsa imortalidade

Por: Felipe Sandrin | 25/05/2018 06:00:21

Acordamos para um dia cheio de compromissos. Hora marcada no trabalho, hora certa para o almoço e talvez um encontro com amigos das antigas à noite. Um dia como todos os outros. No café da manhã damos um grande gole de ‘estou atrasado’, mal sentimos o café descer pela nossa garganta. Corremos procurar nosso casaco, sem notar que estamos ofegantes. Entra no carro, liga o rádio, sequer escuta o que o narrador fala, a música é repetida, já até cansamos de ouvir.

“Será que vai sair negócio? Hum, mas se não der, a meu Deus, tem que dar. Eu devia ter deixado agendado com... esqueci, tem que pedir para remarcar. Para quando é a consulta mesmo? Nem vou avisar ninguém, que se dane, mas preciso até o fim do mês”. Fluem nossos pensamentos como rios que não desaguam em lugar nenhum. Comemos sem sentir o sabor, aliás, quantos copos de água eu já tomei hoje? Não sei, tomar água é algo tão normal que não há prazer algum em lembrar-se disso.

Eis a rotina da maioria de nós, sem gosto, sem cheiro, respiramos sem notar que o fazemos. Mas e se nos faltasse o ar? Se nosso estômago rejeitasse a comida? Se nesse desconhecido estômago do qual nunca lembramos surgisse um câncer? Se uma sonda então fosse colocada em nosso nariz e só por aí passássemos a receber nosso alimento?

Vocês viram algo sobre o caso daquela menina, modelo, famosa, milhões de seguidores? Do dia para noite: ‘É um câncer no estômago’. Bum, mundo que caí. A gente ouve falar, a gente lamenta. Sabemos do quanto é horrível um câncer, mas no fundo a gente não quer saber, se quiséssemos de verdade lembraríamos e puxaríamos forte o ar: tenta aí, faça o teste, puxe o ar bem fundo.

Segunda à noite o Yuri também partiu. Um garoto que eu conheci em 2011 na ala das crianças com câncer de Florianópolis. Ele tinha 12 anos, estava jogando bola e BUM, mundo que vira, câncer nos ossos, amputou a perna, pensou estar curado, não estava e vinte dias após completar 18 anos se despediu de seus pais.

Vocês repetem que a vida é frágil, mas não entendem, não entendem porque no fundo não querem entender. Vocês vão chegar em casa hoje e novamente vão esquecer de dizer te amo a quem está na sua vida, vão esquecer porque lembrar do quanto você ama alguém é lembrar da fragilidade dessa vida e deste “mentiroso” para sempre.

As noites desta semana foram pesadas para mim, sinto que alguma chavinha está virando lá no fundo, às vezes lembro-me de puxar o ar fundo, às vezes paro de comer, largo os talheres e tento sentir o gosto daquele alimento. Acho que ficou um pedaço daquele Yuri em mim, da sua luta contra uma doença que todos sabiam que já tinha lhe vencido, o condenado, estampado uma contagem regressiva em seu frágil corpo consumido por tratamentos ineficazes.

Não há tratamento para a doença da falsa imortalidade, do falso sentimento dos que dizem pelas esquinas “a vida é frágil” como quem diz “será que compro pão hoje?”.

Sabemos das doenças que nos assombram, do sofrimento que arranca a casca de alguns e expõe a fragilidade de nós todos. Sabemos, mas fazemos questão de esquecer, talvez por medo, talvez porque a vida já seja infeliz o suficiente. Ou será tão infeliz a vida exatamente por que fingimos não ver o quão passageiros somos dela.
 


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Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: [email protected]



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