A exceção poderia ser regra, às vezes

Por: Greice Scotton Locatelli | 30/05/2018 06:00:06

Escrevo este texto no final do 6º dia de paralisação dos caminhoneiros no Brasil e percebo duas situações bem distintas conversando com amigos e familiares e observando o comportamento de pessoas estranhas na rua.

Entre os que acompanham as notícias, seja pela imprensa seja pelas redes sociais, há uma insegurança quase deprimente no ar. Pessoas estocando comida e água, preocupadas se terão o que comer amanhã ou o que vão fazer quando a pouca gasolina que está no tanque do carro acabar. Boa parte delas fez fila nos postos durante a semana e foi para o mercado comprar itens básicos que ainda não estavam faltando em casa, mas que nas prateleiras do armário geram um alento temporário. Teve ainda os que entraram em estado de alerta máximo e estocaram água, arroz, feijão e farinha em quantidades enormes.

Do outro lado, há aqueles que mal ouviram falar da greve, que nem tentaram abastecer porque acharam que as filas eram algum tipo de promoção e que sequer fazem ideia do risco de desabastecimento que ronda o país e mantém, em casa, só o que lembraram de comprar durante a semana – e olhe lá.

Quem é mais feliz? Só o tempo de paralisação dirá. Se a greve perdurar por mais alguns dias, talvez os que se precaveram possam ganhar alguns dias de trégua. Se acabar logo, quem se preocupou talvez vá pensar “quanto sono perdido em vão!”. O que ambos os grupos têm em comum? Estão (bem) mal-acostumados.

Temos tudo à mão o tempo todo e só damos valor depois que perdemos. Exemplo clássico: água. Pouca gente se preocupa em economizar. Até que o abastecimento falha. Aí é aquele Deus-nos-acuda, improviso, transtorno. Juramos que vamos repensar hábitos de consumo e usar só o necessário dali em diante. Mas essa promessa se vai quase que no mesmo instante em que a água volta a sair da torneira. Cada dia uma desculpa e assim vamos levando até faltar novamente e mais uma promessa de melhor uso aparecer e desaparecer na sequência.

Durante a greve dos caminhoneiros, o cenário nas ruas era bem estranho: na quinta-feira, dia 24 de maio, Bento Gonçalves parecia uma cidadezinha de interior em um domingo de manhã de inverno. Pouquíssimos carros circulando, ar puro, silêncio. Fiz perguntas a mim mesma e a pessoas com as quais convivo e chegamos à conclusão de que aquilo era consequência da insegurança coletiva. Como as pessoas não sabiam até quando a gasolina duraria, encontraram outras formas de se locomover: a pé, de carona, de ônibus. Aquilo me fez lembrar o diálogo de uma senhora com o marido no mercado. “Temos que pensar bem no que fazer de janta para que não sobre nada. Nada pode ir para o lixo porque não sabemos quando voltaremos a ter verduras”, alertava ela.

A época é de exceção e qualquer transtorno que afete a nossa rotina é ruim. Mas, como a vida é feita de lições, talvez esse clima de insegurança possa nos fazer aprender uma. Você já se perguntou por que precisamos esperar chegar ao limite para repensarmos nossos hábitos? Aquele tio que só passou a se alimentar melhor quando sofreu um infarto; o marido que aceita fazer um trajeto diferente e dar carona para a esposa só depois que a incerteza sobre quando haverá combustível disponível surgiu; a mulher que começou a se preocupar com o desperdício de comida porque não tem certeza de quando terá acesso a alimentos perecíveis novamente.

Talvez o segredo para aprendermos essa lição seja, de vez em quando, fingirmos um estado de exceção: viver como se não tivéssemos certeza do amanhã – em todos os aspectos da vida. Sem paranoia, sem ansiedade, sem depressão. Simplesmente dando valor ao que importa hoje, demonstrando o que sentimos, consumindo de forma sustentável tanto o que custa o nosso suado dinheiro quanto os recursos naturais.

Volto a dizer: esse texto foi escrito no 6º dia de paralisação. Não tenho certeza do que vai acontecer, tampouco se o jornal em que esse texto será publicado vai circular. A única certeza é que, se queremos um país melhor, como sabiamente pedem os caminhoneiros com apoio da maioria da população, já passou da hora de começarmos por nós mesmos, nas nossas casas. 

Valorizar enquanto tem, antes que falte. Eis uma lição que precisamos urgentemente aprender.
 


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Greice Scotton Locatelli

Greice Scotton Locatelli

 



Editora-chefe do Grupo SERRANOSSA desde 2010, é formada em Comunicação Social - Habilitação Jornalismo, pela Unisinos, e tem na Língua Portuguesa e na Fotografia duas de suas maiores paixões.



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