Por medo de privatizar, nós quebramos

Por: Felipe Sandrin | 30/05/2018 06:00:53

Você lembra daquela famosa propaganda de posto “Apaixonados por carro como todo brasileiro”. Lembra? Ah, pois é: definitivamente aprendemos a nos “apaixonar” por carros. O que não percebemos é que, se aprendemos, significa que alguém nos ensinou. Mas quem? 

Você já colocou na ponta da caneta o quanto custa ter um carro? Não, você não fez isso, o que você sabe é uma média, mas certamente não sabe o valor exato de quanto custa manter um veículo durante um ano inteiro. Para lhe dar uma ideia, e sendo bem objetivo, um carro de R$ 40 mil vai lhe custar, por ano, R$ 18.259. Para ter noção, se levarmos em conta que você fizesse a mesma quilometragem de Uber, em um ano você gastaria R$ 16.653. E se andasse de táxi, R$ 23 mil. Não especificarei os detalhes aqui, há várias páginas na internet que fazem todo cálculo para você. O que quero mostrar é que esse “apaixonado” que o brasileiro acredita ser por carros nada mais é do que o governo agindo para pegar seu dinheiro. E, claro, como hoje notamos, eles venceram.

O combustível pertence ao governo, cada um dos impostos que pagamos para ter um carro também vai direto para o governo. Seria estranho, então, não sermos tão motivados a termos um veículo e o ostentarmos como se fosse um ótimo investimento.

Nossa educação não é somente precária no quesito da alfabetização e matérias básicas, nossa precariedade de ensino está nas ideologias e explorações já contidas nessa forma de aprender a viver.

Nossas esquinas estão desertas, desaprendemos a andar nas ruas na desculpa de que elas ficaram violentas. Mas quando ficaram assim? Ora, quando paramos de andar nelas. Escrevo há muito tempo sobre isso: quando o espírito de uma comunidade se quebra e vizinhos não conhecem vizinhos, logo o silêncio vira escuridão. Não é, portanto, a insegurança de um lugar que afasta as pessoas, mas, sim, a falta de pessoas que trará a insegurança para aquele lugar. Quando aprendemos a nos isolar em carros e apartamentos, logo passamos também a desconhecer nossas esquinas. Assim nos desconectamos da comunidade, da cidade e, por fim, aceitamos os perigos que nela habitam.

O brasileiro que hoje teme o Brasil começou assim, temendo as esquinas do próprio bairro. A falta de uma educação sólida e as décadas de manipulação governamental nos fizeram o que somos: manifestantes que pensam saber pelo que manifestam, mas que, no fundo, não fazem ideia de como podemos sair desse buraco.

Estamos aparelhados até mesmo em nossos sonhos, sonhamos o sonho dos que governam. Aprendemos a odiar empresários e empreendedores, estávamos tão ocupados chamando eles de exploradores que não percebemos o valor de quem gera empregos.

E, assim, motoristas de caminhão em poucos dias mostraram que o Brasil já estava parado. Não são estradas fechadas que nos quebram, o que nos quebra é sermos a coluna vertebral de um sistema feito para sustentar inescrupulosamente o próprio sistema. Somos o cachorrinho de coleira sendo guiado pelas mãos de políticos que querem crescer o governo, o Estado.

Somos reféns de uma Petrobras que foi usada para deixar políticos bilionários. E pensar que alguns anos atrás tínhamos tanto medo da palavra “PRIVATIZAR”. 

Hoje fica fácil perceber o erro, devíamos, sim, ter “vendido” o Brasil. Com certeza quem tivesse comprado nos trataria muito melhor do que esses políticos nos tratam. 
 


É proibida a reprodução, total ou parcial, do texto e de todo o conteúdo sem autorização expressa do Grupo SERRANOSSA.

Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: [email protected]



O SERRANOSSA não se responsabiliza pelas opiniões expressadas nos comentários publicados no portal.



Leia a Edição
IMPRESSA


Edição 672
10/08/2018
Edições Anteriores

Curta o SERRANOSSA