Vem aí a geração tarja preta

Por: Felipe Sandrin | 06/08/2018 06:00:17

Se você é um usuário assíduo da internet, provavelmente viu que o vídeo da semana foi o dos jovens ostentadores. Uma galerinha que se reúne para celebrar o “Outfit”. Para quem não viu e está curioso, procure aí: “Quanto custa o Outfit”. No vídeo, você verá basicamente isso: jovens usando looks que chegam a custar R$ 40 mil.

Nada de novo e surpreendente: a ostentação sempre andou de mãos dados com todos nós. O que impressiona nesse vídeo talvez seja a naturalidade com que esses jovens pronunciam valores. Valores, pois é, onde estão, o que são e para onde vão?

Caminho pelo shopping, crianças indomáveis e seus pais que funcionam como bonecos guiados pela indiferença – ou cansaço –. Não sei. Sei que na praça de alimentação a criança chora e o pai tenta controlá-la usando Coca-Cola. Em uma mesa atrás de mim, uma família menos diabética usa um aparelho celular: a filha assiste algo enquanto eles comem. Crianças incontroláveis, que controlam seus pais.

Você lembra daquele olhar do seu pai? Aquele, silencioso, fixo e incorruptível olhar, claro como as águas de um mar limpo à espera de onda fortes. Bastava aquele olhar para entendermos que era hora de ficar em silêncio, de se aquietar e de torcer para não existirem as consequências assim que chegássemos em casa. Pois é, aquele olhar se perdeu em algum lugar junto da modernidade. Deu lugar a uma voz dengosa tipo “o que você quer, filhinha? Não faz assim que eu levo você pra casa”, enquanto a criança grita e esperneia.

Vocês estão achando essa geração ruim? Esperem pela próxima. A moda vai ser o tarja preta. “Mãe, não esquece de comprar meu antidepressivo”. Eis a frase que será mais repetida pelos jovens nos próximos anos. Na escola, vão ostentar roupas e remédios: “Ei, acabei de comprar o ultraplus antidepression power funny”.

E, sendo depressão coisa séria, por que os pais seguem a brincar com a criação de seus filhos? Por que continuam a ceder na esperança de se livrarem do problema? Que o brasileiro sempre foi imediatista isso todos sabemos, agora, abdicar do futuro dos filhos? Tem muitos pais por aí acreditando que a principal meta familiar é deixar patrimônio financeiro. Amigo, presta atenção, quando seu filho mergulhar em uma depressão e começar a pensar ou falar em suicídio, não vai adiantar dar aquele discurso dizendo que tudo o que você construiu foi para ele.

Jovens sempre foram vistos como rebeldes sem causa, mas a ideia de não ter causa remetia à rebelião, a atacar o sistema – mesmo que não fizéssemos ideia do que era o sistema. A frase “a vida não tem sentido” não é mais dita como em outros tempos. A revolta se tornou uma passividade depressiva, as angústias e ansiedades não ganham forma, pois a forma das novas gerações se expressarem se tornou a poeira de um mundo em constantes atualizações.

A internet é agora, em parte, também pai, mãe e melhor amiga. E mesmo que a criança seja privada deste mundo por um tempo, ainda assim ela irá se deparar com a constante necessidade das pessoas que a cercam de usarem de tais mecanismos.

A ideia de uma geração amável, mais comprometida com o bem do mundo, esbarrou na fragilidade emocional. Se em outras épocas o fogo forjava aço, hoje percebemos que as conexões tiraram os jovens do mundo real e os transportaram para uma eterna Disneylândia virtual.

Estamos criando um mundo sem adultos, com pessoas que serão como adolescentes até os 40 anos. Frágeis, inseguros e crentes de que mudar o mundo seja algo a ser feito de um sofá.


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Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: [email protected]



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