Pobre Língua Portuguesa!

Por: Greice Scotton Locatelli | 29/06/2018 06:00:54

Nós, jornalistas, vivemos da palavra e transformar esse emaranhado de letras em algo de fácil compreensão é um desafio diário que exige que tenhamos conhecimento em um pouquinho de tudo: economia, direito, psicologia... É nosso papel “traduzir” para você, leitor, uma informação, sempre tendo o cuidado para não se tornar parcial – ou seja, pender para um determinado lado. Parece simples, mas não é. Somos a somatória das nossas experiências de vida e tentar separar isso do lado profissional é uma tarefa que exige muito jogo de cintura. Quer um exemplo? Se um jornalista precisa cobrir uma paralisação de determinada categoria – caminhoneiros, falando de uma das mais recentes – e tem um familiar que é profissional da área, ele pode facilmente “defender”, mesmo que inconscientemente, o que os motoristas pedem. É normal, afinal ele está imerso nesse mundo e conhece todos os detalhes e a luta diária. Mesmo assim, precisa ter bom senso para mostrar tanto o lado de quem reivindica quanto o de quem está sendo pressionado, além de apurar como isso está afetando a população. Agora imagine como é complexo ter esse discernimento trabalhando sob pressão, com internautas sedentos por notícias em tempo real, com prazo para entregar material e lidando com fake news que comprometem a credibilidade.

Mas há um entrave ainda maior, que independe do quanto o profissional da comunicação é zeloso em relação à sua própria interpretação: a preguiça do leitor. Sim, infelizmente vivemos em um país onde as pessoas têm preguiça de ler e sérias dificuldades para interpretar um texto, fruto, em parte de uma educação básica deficitária. Digo em parte por acreditar que quem realmente quer algo não mede esforços para conseguir. Esse misto de preguiça e acomodação traz consequências sérias, que muitas vezes são subestimadas. É o caso de um adolescente cursando o Ensino Médio que conseguiu uma oportunidade de emprego em um supermercado, mesmo sem experiência – algo raro quando o assunto é emprego. Eis que um belo dia, ele encaminha um pedido por escrito para que fosse comprada uma remessa de massa. A sorte é que o supervisor estava atento (e bem mais antenado em termos de Língua Portuguesa) e se deu conta de que na verdade a compra era de maçã. Uma letrinha trocada que custou o tão batalhado emprego dele. 

Essa mistura de falta de noção básica do idioma com preguiça, acomodação e deficiências na interpretação comumente nos tira do sério. Olhe a imagem abaixo e tire suas próprias conclusões. Ela ilustra, de forma simples, o que passamos todos os dias tentando levar informação a pessoas que, mesmo resumindo e simplificando, têm preguiça de ler. 



Infelizmente vivemos em um país onde a leitura está a anos-luz de ser um hábito coletivo. Dê uma olhada nos erros grotescos que aparecem na sua timeline do Facebook – alguns casos são típicos de “vergonha alheia”.

Essa frustração faz parte da profissão, mas isso não minimiza a minha tristeza – e a de todos os que amam e respeitam nosso idioma – por esse “assassinato” diário, seja por preguiça ou por descaso. 
 


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Greice Scotton Locatelli

Greice Scotton Locatelli

 



Editora-chefe do Grupo SERRANOSSA desde 2010, é formada em Comunicação Social - Habilitação Jornalismo, pela Unisinos, e tem na Língua Portuguesa e na Fotografia duas de suas maiores paixões.



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