Camarote
02/11/2018 09:29:04, escrita por Greice Scotton

Série especial: Vida de... produtora cultural

Um exemplo de amor a todas as formas de cultura, em sua forma mais pura. A produtora cultural bento-gonçalvense Maria Stefani Dalcin é o tipo de pessoa que acumula a mais rica de todas as bagagens: a de vida.

Nas paredes e nos detalhes de sua casa, é possível perceber o tamanho da admiração pela arte: quadros pintados por ela própria dividem espaço com obras de artistas famosos e anônimos. Na lareira, um presépio de cerâmica em que cachorros e galinhas aparecem na principal cena da história católica ao lado de personagens bíblicos demonstra o apreço por diferentes culturas. Lembranças de viagens, de experiências, de trabalhos realizados com louvor e de uma carreira marcada pela versatilidade. Uma mulher independente, apaixonada e muito à frente do seu tempo.

Nascida em Bento Gonçalves, Maria viajou por todo o Brasil e por diversos outros países fazendo o que mais ama. A profissão de produtora cultural começou oficialmente em 1995 e, desde lá, ela acumula uma série de projetos executados através da Lei Rouanet e do Fundo Municipal de Cultura (FMC). Mas sua carreira foi muito além de ser a alma por trás de produções de todo o tipo. De Porto Alegre a Roraima, passando por Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo, Maria percorreu os mais remotos cantos do Brasil e se aventurou também fora dele, nos Estados Unidos, México e Cuba. 

Como parte do trabalho à frente Programa Nacional de Desenvolvimento do Artesanato, Maria percorreu locais isolados em todo o Brasil. No registro, durante uma oficina de cerâmica na aldeia Macuxi, em Roraima (Foto: Arquivo pessoal)

 

A paixão pela arte começou ainda na adolescência, especialmente nas páginas de livros de pintores franceses e suas histórias de vida. Logo, naturalmente surgiu o interesse por se aprofundar. Maria começou a cursar Artes em Caxias do Sul – fez parte da primeira turma de candidatos que prestaram o então “vestibular unificado”. Estudou por um ano e se transferiu para a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), onde começou a ter contato com produções culturais em um nível além do local e estadual. Em 1974, no então Departamento de Assuntos Culturais da Secretaria Estadual da Educação, alguns dos contatos mais importantes da carreira começaram a acontecer: com a equipe do Bolshoi, a mais importante escola de ballet do mundo, e com a gaúcha Califórnia da Canção Nativa, que a levou a se especializar em Cultura Gaúcha. A formatura da turma contou com uma exposição de obras – a primeira realizada – e teve uma projeção que nem mesmo os organizadores acreditavam. 

Reviravoltas 
A partir da primeira exposição, a pintura passou a fazer parte do cotidiano de Maria, mas uma intoxicação grave por tinta a óleo a obrigou a mudar os rumos da carreira. No meio do caminho, arriscou realizar o sonho antigo de cursar Arquitetura, não realizado na época pela distância de casa, como segunda opção de graduação. Mas, novamente, uma reviravolta: Maria cruzou com sua paixão maior, a museologia. Era a década de 1980 e a profissão não tinha nenhum tipo de reconhecimento. Mas, com o protagonismo que foi marca registrada de sua carreira, a vontade de superar o desafio foi maior do que as dificuldades. Maria e seus colegas da época tiveram papel determinante no reconhecimento da profissão ao lado de nomes como Tarcísio Taborda, de Bagé (RS), um dos grandes defensores dos museus. “Quem estava na profissão há cinco anos e tinha profissão universitária afim passava a ter o título de museólogo provisionado. Era meu caso, fiz parte da primeira turma de museólogos com registro no Corem”, orgulha-se.

O trabalho foi ganhando cada vez mais visibilidade e Maria chegou ao cargo de coordenadora do Programa Nacional de Desenvolvimento do Artesanato (PNDA), vinculado ao Ministério do Trabalho. “Foi uma imersão na cultura em sua forma mais pura. Desenvolvemos oficinas em todo o território nacional, nas localidades mais remotas. Sempre que descobríamos um artesão em potencial, íamos conhecer a realidade dele”, relembra. 


Maria, então coordenadora do Programa Nacional de Desenvolvimento do Artesanato, assinando convênio com o atual prefeito de São Paulo, João Doria (primeiro à esquerda), na época presidente da Embratur (Foto: Arquivo pessoal)

 

Mais reviravoltas 
Quando o ex-presidente Fernando Collor de Mello assumiu a presidência, no início da década de 1990, houve o que Maria chama de “arrastão na cultura”, com fechamento de departamentos, secretarias, institutos e projetos. Funcionária pública estadual, ela havia sido cedida para o governo federal e levou quase um ano até conseguir ser reintegrada ao quadro gaúcho. A decepção em ver todo o trabalho destruído foi tanta que Maria, mais uma vez, alterou os rumos da carreira. Depois de um tempo vivendo com a irmã, no Rio de Janeiro, ela se mudou para São Paulo, onde abriu uma confecção de roupas. “Fiquei muito mal ao ver tudo pelo que lutamos durante tanto tempo tratado com tamanho descaso”, conta. A empresa ia muito bem financeiramente quando a vida da produtora teve mais uma reviravolta – nessa época ela já havia pedido exoneração do serviço público estadual. Um ex-colega assumiu a Secretaria do Trabalho de São Paulo e a convidou para trabalhar na Superintendência do Trabalho Artesanal nas Comunidades (Sutaco). “Voltei para o meu mundo! Conseguimos montar uma equipe brilhante e fazer projetos de expressão nacional”, relembra, com orgulho.

A volta para Bento 
No final da década de 1990, Maria tomou uma importante decisão: voltar para Bento Gonçalves. “Meu irmão faleceu e percebi que era hora de voltar e cuidar da família. Tive receio porque, como dizem, quando se muda uma árvore adulta, é difícil enraizar. Mas deu tudo certo”, conta. De volta à cidade, ela desenvolveu o primeiro projeto museológico em Bento, o Memorial do Vinho, instalado no Hotel Villa Michelon para o empresário Moysés Michelon, falecido no ano passado. O Vale dos Vinhedos, onde os pais de Maria nasceram e viveram, também se tornaria parte importante dos projetos profissionais dela: em 2008, lançou o livro “Vale dos Vinhedos – História, Vinho e Vida”, financiado pela Lei de Incentivo à Cultura – Lei Rouanet. 

Os projetos
A execução do projeto do próprio livro trouxe a experiência necessária para ela assumir de vez a atual profissão de produtora cultural. “Por meio de iniciativas como o Fundo Municipal de Cultura descobri potencial em muitos artistas locais, digno de grandes centros. E Bento Gonçalves está de parabéns por manter iniciativas desse tipo, que fazem toda a diferença na hora de valorizar os talentos culturais”, comenta. “Percebo que a classe empresarial está resgatando a antiga atitude de apoiar projetos diretamente, ou chamados patrocínios espontâneos. Projetos incentivados pela Lei Rouanet, por sua vez, dependem de captação de recursos e, pelo seu histórico, apenas 20% dos projetos aprovados anualmente pelo Ministério da Cultura conseguem captar pela renúncia fiscal”, explica. 

Qualidade de vida
Não é à toa que Maria defende a cultura como uma maneira determinante de melhorar a qualidade de vida não só de quem produz, mas de quem consome. “No interior de São Paulo, tínhamos análises que mostravam que quanto mais opções de cultura, menores eram as filas dos postos de saúde. Cultura gera prazer e encantamento e isso faz toda a diferença na qualidade de vida. Quanto antes os governantes entenderem esse ciclo, mais cedo as pessoas se interessarão pelo consumo de produtos culturais e mais rápido construirão seu capital cultural”, garante.

 

Fenavinho – Uma emoção à parte

Maria (ao centro, de regata branca), com a equipe responsável pelo espetáculo cênico “A história cultural do vinho”, um marco na história da Fenavinho, apresentado em 2007 em parceria com um grupo de Parintins (AM). (Foto: Arquivo pessoal)
 

Não importa quantos milhares de quilômetros Maria percorreu ao longo de sua trajetória. O espetáculo cênico “A história cultural do vinho”, que encantou milhares de visitantes durante a Fenavinho 2007, ainda faz os olhos dela brilharem. A atração, idealizada pelo empresário Tarcísio Michelon, de autoria de Maria, ganhou vida na parceria de grandes artistas de Parintins (AM). “Foi uma das melhores experiências da minha vida. A museologia estabelece relação entre o real e a realidade, enquanto o espetáculo cênico transcende a realidade e passa a relacionar o real e o imaginário. Descobri um mundo fascinante e tenho orgulho de ter podido apresentá-lo a milhares de pessoas. Foi como um museu vivo”, emociona-se.


 

Esta é a 63ª reportagem da Série “Vida de...”, uma das ações de comemoração aos 10 anos do SERRANOSSA e que tem como objetivo contar histórias de pessoas comuns, mostrando suas alegrias, dificuldades, desafios e superações e, através de seus relatos, incentivar o respeito. 



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