Economia
26/01/2018 08:51:18, escrita por Carina Furlanetto

A dificuldade de preencher vagas

Ao mesmo tempo em que a economia começa a ensaiar sinais de recuperação e as empresas estão timidamente voltando a contratar, há dificuldade em preencher as vagas ofertadas. Em 2017, até o mês de novembro, o acumulado do ano representava a criação de 216 postos de trabalho – no mesmo período de 2016, o saldo era de 993 empregos a menos. Os dados são do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), divulgados pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE).

Entre os desempregados que não conseguem concorrer às vagas ou que acumulam negativas nas entrevistas realizadas, a sensação é de que falta emprego. “Todos os dias estamos procurando. Já fomos até em Garibaldi e Farroupilha direto nas empresas deixar currículo”, conta Neide*, de 43 anos que assim como o marido, de 31, está desempregada. Sem necessidade de pagar aluguel, o casal consegue se manter com as faxinas pontuais que ela realiza. 

Entretanto, basta analisar as estatísticas da agência FGTAS/Sine de Bento Gonçalves para constatar que, mesmo que a oferta não seja a mesma do que nos anos anteriores à crise, os encaminhamentos para entrevistas continuam ocorrendo, porém o número de admissões tem caído. Em 2015, dos 45.942 atendimentos, foram 9.022 encaminhamentos para entrevistas e 1.022 contratações, ou seja 11,32% das entrevistas realizadas resultaram em emprego. Em 2017, houve diminuição de atendimentos (32.004) e encaminhamentos (4.853), com apenas 7,7% de admissões (375). O sistema  do Sine contabiliza cada atendimento, por isso, muitos deles podem ter sido buscados por uma mesma pessoa, mais de uma vez. “Às vezes chega a ter 100 pessoas por vaga”, lamenta Neide. 

De acordo com o coordenador da agência, Sandro Castagnetti, os dados são reflexo do aumento das exigências feitas pelas empresas e da baixa qualificação de quem procura uma recolocação. Até mesmo para funções que aparentemente possam ser exercidas por quem tem uma escolaridade mais baixa está sendo exigido pelo menos Ensino Médio completo. “Não podemos encaminhar o candidato que não preencha os pré-requisitos ou corremos o risco de o nosso serviço não ser mais procurado”, destaca, explicando que o atendimento é gratuito tanto para empresas quanto para os trabalhadores.  Pouca experiência e mudança constante de emprego também costumam dificultar os encaminhamentos. “Antigamente, quando havia mais vagas e o trabalhador poderia escolher onde queria trabalhar, a rotatividade era maior e a troca de serviço era mais frequente”, explica Mônica Pelizzer, do setor de captação de vagas da agência FGTAS/Sine. 

O número de postos de trabalho em aberto também tem aumentado. Em Bento Gonçalves, em 2015, 68,6% das vagas ofertadas foram preenchidas, contra 33% em 2017. Na visão do diretor-presidente da FGTAS no estado, Gilberto Francisco Baldasso, o cenário reforça a importância de qualificar-se. “Quem não voltar a estudar vai ficar para trás”, avalia. 

Perfil 

A dificuldade para encaminhar candidatos para as vagas ofertadas também é sentida nas agências privadas de recrutamento e seleção. Conforme a diretora da Asterh, Lisiane Vanni de Miranda, a questão da escolaridade nem sempre é um impeditivo. “O que importa é ter o perfil que a empresa procura”, garante. Para quem não tem um currículo tão rico, a falta de qualificação pode ser compensada com outras competências, como vontade de aprender, boa comunicação e disponibilidade de horários. Na área turística, por exemplo, com frequência há vagas com poucas restrições – como camareira ou auxiliar de cozinha – mas que nem sempre são preenchidas porque requerem expediente aos finais de semana e à noite. 

Apesar de disponibilizar ferramentas para cadastramento on-line, Lisiane explica que a Asterh faz questão que os candidatos compareçam à agência pessoalmente. A entrevista é importante para detalhar as funções exercidas nos empregos anteriores e traçar um perfil mais fidedigno. Com base nestas informações e nas aspirações profissionais apresentadas, é possível fazer uma análise das reais chances de contratação. Em muitos casos, há uma distância entre o que o candidato oferece e o que ele pretende. Vagas de meio-turno, por exemplo, pretendidas por muitos, são mais raras. “É preciso também conhecer a realidade do mercado, que é atualmente diferente dos momentos de pleno emprego”, ressalta. 

Vale destacar que o papel da consultoria é apresentar caminhos para que o candidato consiga se aperfeiçoar e estar apto à vaga que pretende. Mesmo que ele preencha todos os requisitos da função, a contratação pode não acontecer, já que as decisões são tomadas diretamente pelos empregadores, sem interferência da agência, que apenas faz a intermediação, a triagem e o recrutamento. 

Embora tenha apenas o Ensino Fundamental, João*, de 54 anos, tem mais de 20 anos de experiência como caldeirista e 12 como motorista, mas há um ano está desempregado e sempre recebe negativas quando busca uma recolocação. “Nunca tinha ficado desempregado por tanto tempo”, comenta, dizendo que mesmo com vagas anunciadas em sua área não é chamado nem para entrevistas e acredita que seja pelas especificações feitas por quem contrata. 

Segundo Lisiane, nos anos de 2016 e 2017 houve uma grande regressão nos números de contratação. Entretanto, no último trimestre de 2017 houve uma leve melhora e, de forma geral, as empresas estão mais otimistas e o número de processos seletivos deve aumentar. Em contrapartida, as empresas estão mais exigentes e nem sempre os profissionais buscados estão disponíveis no mercado. Vagas mais técnicas – como estofador e torneiro – são as mais difíceis de serem preenchidas, passando meses até que se encontre alguém capacitado. 

Cada vez mais as empresas estão em busca de profissionais que realizem mais do que uma função, o que nem sempre é fácil de encontrar. Juliana*, de 27 anos, é formada em Tecnologia em Logística e está procurando oportunidades na área há cinco meses. “Fiz novos cursos relacionados, realizei novos estudos para aumentar meus conhecimentos. Fiz algumas entrevistas, mas não obtive retorno. Geralmente as empresas exigem uma pessoa multitarefas com experiência comprovada em várias funções: realizar vendas, emitir nota, cuidar do financeiro, almoxarifado, estoque, entre outras atividades. É difícil ter comprovação de diversas funções, geralmente são em áreas mais específicas”, lamenta.

Melhorar currículo

A melhora nas contratações para 2018 também é projetada pela RH Talentos. Para quem planeja abandonar a situação de desempregado, a dica da gerente da parte operacional da agência, Maria Helena Menoncin, é melhorar o currículo. “Toda oportunidade de qualificação é bem-vinda”, assegura. Se falta dinheiro para investir em cursos, por exemplo, a dica é ficar de olho em capacitações gratuitas. “Até mesmo palestras, mesmo que de outras áreas de atuação, são interessantes para aprimorar as habilidades e aumentar a rede de contatos”, orienta.  

Para os candidatos que procuram o serviço da agência e apresentam um currículo pouco atrativo, é realizado um direcionamento para cursos de capacitação, assim como orientação de como portar-se durante as entrevistas. Ela garante que vagas para trabalhadores menos qualificados, embora mais raras, também aparecem. Recentemente, uma rede de lanchonete recrutou 30 funcionários sem necessidade de experiência. Mesmo assim, muitos candidatos não se apresentaram em função do expediente aos finais de semana e por não poderem ficar fora da cidade por 30 dias para realizar a capacitação oferecida pelo contratante. 

Para os jovens que estão querendo ingressar no mercado de trabalho, o conselho é que procurem uma orientação vocacional para descobrir as áreas de aptidão e poder voltar-se para o ramo. Para quem concluiu o Ensino Médio e ingressou em uma faculdade ou em um curso de especialização, há a facilidade maior de encaminhamento para estágios. “É preciso correr atrás. Em primeiro lugar tem que se perguntar: o que eu quero para mim?”, aconselha. 

*Os nomes usados na matéria foram substituídos para preservar a identidade dos entrevistados.
 



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