Esporte
29/09/2017 10:00:49

Vida de quem fez história no rugby em Bento

A medalha de prata pode não ter sido o prêmio sonhado pelos jogadores do Farrapos quando embarcaram para Blumenau-SC, no último final de semana, para enfrentar o Jacareí na decisão do Super 8 – o campeonato brasileiro de rugby. Porém, o orgulho de ver o time chegar à sua primeira final nacional, no ano em que completa uma década de existência, é o sentimento que, no fim das contas, prevaleceu. A história do clube é resultado do empenho e da dedicação de várias pessoas que se doaram pela modalidade. Desses, dois nomes podem ser destacados: Luis Francisco Flores (Tito), único dos quatro fundadores que ainda mantém o envolvimento, e Leonardo Scopel, que defende as cores do time desde a primeira partida. “Tem muita gente que vem me falar que eu fundei o Farrapos, que é por causa minha. Mas, especialmente, nos três, quatro primeiros anos, se não tivesse esse cara aqui, para realizar o trabalho junto comigo o Farrapos não existiria”, agradece Tito, fazendo referência a Scopel.

Tito foi presidente do Farrapos por quatro mandatos, além de ter atuado como jogador até o bicampeonato gaúcho, em 2011. Atualmente é diretor comercial. Filho de argentinos, cresceu acompanhando o rugby nas idas ao país vizinho. O convite para praticar a modalidade surgiu quando um amigo o viu com a camiseta dos Pumas (como é conhecida a seleção argentina). Eram quatro amigos que se deslocavam até Caxias do Sul para treinar com o Serra Rugby quando a ideia de criar um time em Bento Gonçalves surgiu. Ele conta que, embora já gostasse de esportes, foi na adolescência, em um intercâmbio nos Estados Unidos, jogando basquete, que se encantou com os benefícios da prática. “Lá eu vi o papel fundamental que o esporte tem, de treinar para ser melhor e competir. Sempre quis começar um projeto esportivo de alguma forma e isso, aliado ao fato de começar a descobrir o rugby, de como ele transforma os valores nas regras do jogo, fez com que, depois de um ano no Serra, quiséssemos trazer para Bento”, comenta. Era novembro de 2007.

O nome escolhido faz uma referência à cidade e sua origem. Como “General Bento Gonçalves” era muito extenso, optaram por Farrapos, em homenagem aos soldados do comandante. O grupo começou a tomar forma com jogadores vindos de dois núcleos: praticantes de jiu-jítsu, alunos de André Cristófoli, e amantes do esporte de aventura, comandados por Fabiano Sperotto (atual presidente do Farrapos). Scopel, então com 18 anos, havia recém-começado a praticar a arte marcial e aceitou o convite para conhecer a nova modalidade. “Comecei muito novo e continuo até hoje porque me sinto bem fazendo isso, mesmo às vezes deixando a família em casa e o trabalho de lado. É um jogo diferente de qualquer outro esporte. Você muda os costumes, vira quase um atleta profissional. Tem que mudar a alimentação, fazer as coisas regradas. São escolhas que se faz na vida”, explica. O primeiro treino foi realizado na linha Paulina e continuou em um campo de futebol 7, no bairro Tamandaré e também na Fundaparque, até chegar ao Estádio da Montanha.

A estruturação do Farrapos e a projeção de títulos iniciou em 2009, com a contratação da consultoria de Pierre Paparemborde e Carlitos Baldassari. A meta de ser o melhor time do Rio Grande do Sul foi alcançada já no ano seguinte, com a conquista do primeiro campeonato gaúcho – o clube hoje acumula oito títulos consecutivos. No mesmo ano, além de não perder nenhum jogo que disputou, a equipe levou o troféu da Copa do Brasil. Em 2011, o Farrapos estreou na principal competição nacional, na época Super 10 – até então, a melhor colocação havia sido um quarto lugar, em 2016. “A nossa mentalidade é treinar para ganhar. A gente sempre quis ser campeão. Neste ano deu tudo certo, a gente encaixou, nosso time estava bom, a equipe já não era mais tão novata, tudo foi se encaminhando. Infelizmente perdemos a final, mas foi uma trajetória impressionante. É mérito do grupo, da diretoria, de todo mundo. A gente fez um bom trabalho”, avalia Scopel. “Hoje somos uma potência e referência no rugby gaúcho e os outros times podem colher frutos por tabela”, afirma Tito.

Ele estima que hoje existam no país cerca de 200 equipes. Embora o esporte ainda seja amador, a organização por parte da Confederação Brasileira de Rugby (CBRu) é digna de modalidades profissionais. Mesmo assim, apesar dos patrocínios, os jogadores ainda precisam tirar dinheiro do bolso para jogar. “Não tem nenhum time que tenha um elenco 100% profissional, mas eu diria que o Farrapos é a equipe que menos tem jogadores profissionais. O que temos são três pessoas remuneradas porque são treinadores e também jogam no time. O próprio Jacareí tem jogadores que são mantidos pela CBRu e foram liberados para a fase final”, destaca. Outro trunfo do grupo local, na visão de Scopel, é ter atletas formados nas categorias de base. “Eles não têm tantos jogadores da casa quanto o Farrapos. Até antes da final a gente não tinha nenhum jogador convocado para um treino da seleção, agora tivemos quatro. São passos que vão acontecendo e mostram que a gente está fazendo um projeto certo”, acrescenta.

Fortalecimento da base

Se quando o rugby surgiu em Bento ainda havia preconceito – especialmente por algumas pessoas o acharem violento – hoje tal resistência ficou para trás. “Na terça-feira, depois da semifinal, me ligou uma mulher querendo colocar os dois filhos pequenos, de quatro e cinco anos, para treinar porque acha o esporte muito legal”, comemora Tito. Segundo ele, há um entendimento nos clubes sobre a importância da base. “Essa final foi tão simbólica, até para a confederação, porque são dois clubes novos que, em vez de contratar jogadores de fora, contratavam treinadores para cuidar das categorias de base”, analisa.

Em Bento, a modalidade é inclusive ensinada nas escolas, com alunos a partir de cinco anos de idade. “Isso que é o nosso futuro. Eu comecei tarde a jogar, mas se alguém começa com 8, 12 ou 14, vai ser diferente do que eu, que comecei com 18”, avalia Scopel. Além disso, o município conta com uma academia de desenvolvimento de rugby, mantida pela CBRu, para jovens a partir de 13 anos, o que fortalece o trabalho desenvolvido.

Fatores de sucesso

Quem já foi a uma partida do Farrapos no Estádio da Montanha pode comprovar a grande mobilização em torno do time, seja dentro de campo, na beira do gramado ou nas arquibancadas. “O rugby é um esporte divertido de assistir. Precisa que no primeiro momento alguém explique minimamente as regras, mas, por mais que a partida seja de um nível mais baixo, sempre é divertido assistir. Alguém está perseguindo quem está com a bola, é emocionante”, observa.

Para Tito, o sucesso da equipe é resultado de vários fatores. Em primeiro lugar, a cidade, que, com seu porte e boa economia, permite a captação de patrocinadores e a existência de uma cultura poliesportiva. “Viajo em todo o Brasil e tenho o hábito de ler os jornais locais. A gente vê quase 100% futebol, e aqui em Bento não. Tudo tem espaço na mídia e tudo em alto nível”, salienta. Há ainda o incentivo do Poder Público, que cede a estrutura do estádio para uso do clube.

Além disso, há o apoio da comunidade, que retroalimenta a motivação dos jogadores, e o envolvimento dos atletas.  “Temos dentro de campo um grupo de jogadores muito especial. Não são todos os clubes que conseguem ter a quantidade e qualidade de pessoas que a gente tem, que estão no clube para trabalhar, tanto para pintar o campo e reformar o estádio quando precisa como para treinar de segunda a sexta depois do trabalho”, pontua. Segundo ele, uma das mensagens que se procura passar aos novatos é a ambição, tanto na vida como no esporte. “Para ser ambicioso tem que pertencer àquilo que se está fazendo e as pessoas se sentem parte do Farrapos”, defende. “Um dos principais diferenciais, que vêm dos valores do rugby, é que a gente não reclama de nada. Se acha que algo está ruim, vai lá, trabalha e muda a realidade”, acrescenta.

Scopel ressalta ainda que a diretoria – ele já ocupou o cargo de vice-presidente – procura fazer jus ao grupo de jogadores. “Não conheço ninguém do clube que saiu. São pessoas que param de treinar, mas que continuam ajudando. Tem muitos ex-jogadores que na semifinal, por conta da chuva que deu, vieram ajudar a limpar e pintar o campo. Poucos clubes têm isso”, garante. Fora de campo, são cerca de 20 a 30 pessoas que também se dedicam voluntariamente. “Não tem investimento que pague esse trabalho voluntário, que é feito com amor. Tem gente que nunca entrou em campo e faz tanto quando um jogador”, assegura.

Título escapou no último lance

No último domingo, dia 24, em partida bastante equilibrada, o Farrapos ficou com o vice-campeonato brasileiro após perder para o Jacareí por 18 a 15. O título escapou entre os dedos. A equipe bento-gonçalvense vencia a partida por 15 a 11 até os últimos minutos de jogo, quando sofreu a virada. “O jogo que tu perde de 24 a 5 é um jogo que foi dominado pelo adversário. Das derrotas que tivemos, nenhuma foi assim. Qualquer partida que a gente perdeu poderíamos ter ganhado com um erro a menos talvez”, avalia Tito, que considera esta final um dos melhores jogos que viu no rugby brasileiro. Apesar do resultado não ter sido o esperado, Scopel garante que todos saíram de cabeça erguida. “Não entro em nada para perder, mas às vezes acontece no esporte. É só a tristeza da derrota, porque ninguém gosta de perder”, conclui. Na avalição de Scopel, foi uma edição superdisputada, em que o clube chegou a ter 10 finais de semana seguidos sem folgas. “Foi um campeonato que fez todo mundo evoluir”, finaliza. Para o próximo ano a competição terá um novo formato, com uma primeira etapa mais regionalizada e participação de 16 clubes. 

Esta é a 46ª reportagem da Série “Vida de...”, uma das ações de comemoração aos 10 anos do SERRANOSSA e que tem como objetivo contar histórias de pessoas comuns, mostrando suas alegrias, dificuldades, desafios e superações e, através de seus relatos, incentivar o respeito. 



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