Geral
10/06/2017 08:30:00

Uma vida entre pares de sapatos

Na mesma oficina, localizada na rua Carlos Flores, Ciro Tumelero passa os dias cercado de pares de sapatos, há 51 anos. De conserto em conserto, ele perpetua o ofício e ainda se mantém em atividade aos 78 anos de idade. “Ainda gosto do que estou fazendo. Não trocaria meu serviço por outro”, assegura. 

A profissão entra no rol das quase obsoletas, mas que ainda encontram espaço apesar da mudança na demanda. “A juventude não quer mais nada com isso, só quer mexer com computador e ganhar bem. Se alguém novo quisesse aprender a ser sapateiro, tem que trabalhar bastante, mas dá para viver mais ou menos bem”, esclarece. Há 53 anos, ele é casado com Iraci, com quem teve dois filhos, Fernando Luís, que é eletricista, e Cassiano André, que seguiu os passos do pai e montou a própria oficina. “Ele é muito caprichoso”, garante.

Nascido em Pinto Bandeira – quando o município ainda era um distrito de Bento Gonçalves –, mudou-se para a cidade para trabalhar em uma vinícola e, ao ser demitido, decidiu virar sapateiro. Teve Luís Balestrin como professor, que lhe exigia bastante nas lições: se errava algum passo, precisava desmanchar a peça e recomeçar. “Foi graças a ele que aprendi tudo que sei”, comenta. Os primeiros anos, pela pouca prática e clientela ainda não fidelizada, foram os mais difíceis. 

Nas primeiras duas décadas, o carro-chefe era a fabricação de calçados. Eram botas, chinelos e sapatos para uso na agricultura – desses últimos, chegou a fazer 11 pares por dia, com jornadas de até 18 horas. “No começo até valia a pena porque não tinha concorrência”, explica. Ele chegou a contar com três ajudantes, mas hoje consegue sozinho dar conta de todos os pedidos. 

A produção de calçados em larga escala, possibilitada com o advento das novas tecnologias produtivas, fez os pedidos reduzirem. A alternativa foi caprichar ainda mais nos consertos. “Antigamente se trocava até três vezes a sola antes de terminar um sapato. Hoje quase não se troca mais. Os sapatos são mais descartáveis”, comenta. “No fim, ainda é melhor hoje do que naquela época, porque dava muita mão de obra. Agora é mais fácil”, argumenta. 

Por conta disso, perfil dos consertos mudou bastante. “Uma vez se trocava 15 a 20 solas, fazia mais 15 ou 20 forrações de salto e 20 a 25 pinturas por dia”, estima. Hoje a demanda é maior nos meses de frio, quando recebe em média 40 encomendas diárias – embora em alguns dias atenda até 70 clientes. Com a troca da estação, os atendimentos caem até pela metade. “Se não fossem as mulheres, eu morreria de fome”, diz, apontando para as prateleiras repletas de sapatos femininos. “Antes, os sapatos de homem chegavam a ser entre 70 e 80% dos pedidos. Hoje, 99% são de mulheres”, compara. O perfil dos clientes também não é mais o mesmo. “Antigamente era só a mãe e o pai que traziam os sapatos. Agora uma que outra senhora de idade ainda vem trazer sapato dos filhos, senão os filhos trazem tudo”, comenta. 

Por conta dos diferentes materiais empregados na fabricação, nem sempre as intervenções feitas terão um resultado satisfatório – quem já não teve a desagradável experiência de ver a sola de um tênis insistindo em descolar? “Eu já aviso: esse não vai durar muito. É por causa do material”, garante. “Muitas vezes se a pessoa vem aqui com um sapato que não vale a pena consertar eu pergunto: ‘quanto custa um novo?’. Eu digo que posso fazer, mas que não vale a pena. Tem gente que ouve e outros insistem em consertar. Se o serviço não vai ficar bom, eu digo na cara”, afirma. Ele lembra de um pedido recente em que o conserto sairia R$ 55 – faixa de preço em que se pode comprar um calçado novo semelhante – e mesmo assim a cliente quis a reforma. “Às vezes a pessoa gosta do modelo e assenta no pé. Não é questão do preço”, garante. 

Alguns clientes chegam a reclamar do valor cobrado para ser viços que consideram mais simples, como colar a ponta da sola de um tênis. “Às vezes na hora a gente não percebe e quando vê está descolado todo ao redor”, justifica, explicando que este é um dos consertos mais trabalhosos, pois é preciso uma limpeza completa antes da colagem. 

Tumelero não tem horário fixo de trabalho. Costuma ir para a oficina, que fica no mesmo terreno onde mora, com os primeiros raios de sol do dia. Dependendo da demanda, chega a estender a jornada até as 22h – assim não compromete o descanso no final de semana. Na parte da manhã, trabalha com a companhia do rádio. À tarde, costuma receber a visita de alguns amigos, que também o procuram aos finais de semana para jogar cartas, assar um churrasco ou apenas bater papo. 

As férias só entraram na sua rotina há cerca de 20 anos – antes trabalhava até mesmo durante os finais de semana. “Tinha serviço e tinha dívidas para pagar”, lembra. Em dezembro deste ano, já definiu que irá para praia de Santa Terezinha, no litoral gaúcho, onde tem casa de veraneio e gosta de pescar. Ele até gostaria de folgas mais esparsas ao longo do ano, mas opta por um período mais longo para não prejudicar os atendimentos. “Eu tenho uma coisa boa: quando eu saio de casa, eu esqueço que tenho casa aqui. Não me lembro nem dos filhos”, brinca. 

Tumelero orgulha-se da sua organização. Antigamente até anotava os nomes de cada pedido, mas a demanda dificultava a procura dos pares. Agora, ele entrega ao cliente um cartão com um número de identificação que deve ser apresentado na retirada. O mesmo número é anotado em uma fita crepe colada ao calçado. Nas prateleiras, onde são colocadas as peças já finalizadas, há nichos para cada pedido conforme o número. Infelizmente, quase metade dos espaços, segundo ele, está ocupada por itens esquecidos. Há cerca de um mês, ele doou para uma entidade assistencial cerca de 400 pares de sapatos e várias bolsas que estavam há mais de um ano à espera dos donos. “Querem fazer limpeza em casa e então mandam para o sapateiro. Como é que vai esquecer um saco com cinco ou seis pares de sapato”, questiona, ao mesmo tempo que especula os motivos para o problema. 

Engana-se quem pensa que quem procura seus serviços é apenas quem não tem dinheiro para comprar um sapato novo. Tumelero conta que entre seus clientes há também médicos e empresários que querem serviços como a troca das solas gastas de um sapato. “Tenho cliente de Carlos Barbosa, de Garibaldi, de Caxias do Sul, de Veranópolis. Às vezes eu pergunto: ‘não tem sapateiro lá?’ Eles respondem: ‘gosto do seu serviço’”, conta. O segredo para atrair e fidelizar a clientela? “Tem que ter muita paciência, tanto com o cliente como com o serviço”, ensina.

Esta é a 47ª reportagem da Série “Vida de...”, uma das ações de comemoração aos 10 anos do SERRANOSSA e que tem como objetivo contar histórias de pessoas comuns, mostrando suas alegrias, dificuldades, desafios e superações e, através de seus relatos, incentivar o respeito. 

 



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