Geral
13/04/2018 09:10:17, escrita por Carina Furlanetto

“A droga leva a pessoa a se colocar em risco”, diz coordenadora do Caps-ad

O crescimento alarmante nos casos de homicídios em Bento Gonçalves expõe um grave problema social: o grande número de usuários de drogas. De alguma forma, a imensa maioria dos 19 crimes ocorridos nos primeiros três meses de 2018 tem alguma ligação com a dependência química – sejam as vítimas dependentes ou traficantes, conforme mostrou reportagem especial feita pelo SERRANOSSA na edição do último dia 6. Mas por que a droga seduz tanto e por que é tão difícil se livrar do vício? 

De acordo com a psicóloga coordenadora do Centro de Atenção Psicossocial para Álcool e Drogas (Caps-ad), Juliana Carvalho, a dependência química é uma doença que não tem cura.  “O tratamento é para a vida toda, não é igual a uma gripe que em 15 dias se está bem”, observa. Se a pessoa não der um basta, pode acabar na rua, na criminalidade, na cadeia ou, em últimos casos, até morrer. “A droga leva a pessoa a se colocar em risco”, pontua. 

Não há uma única causa que dê conta de explicar por que alguém se torna dependente químico. Predisposição genética, história de vida e questões sociais estão interligadas. A grande dificuldade em se livrar da dependência é que, para quem usa, a droga não é ruim. “Há um prazer envolvido com o consumo e isso é difícil mudar, mesmo com as perdas que causa”, salienta. 

O Caps-ad possui atualmente 3.200 prontuários ativos (considerando os atendimentos realizados nos últimos dois anos), uma média que se mantém. A procura pelo serviço costuma ocorrer apenas quando o abuso de substâncias passa a trazer prejuízos ao cotidiano e surge a preocupação em evitar consequências mais graves. “É uma vida que só começa a ficar ruim quando a pessoa perde o controle”, acrescenta. O objetivo do tratamento é reduzir danos, entendendo que as recaídas (ou lapsos, como os profissionais costumam chamar) fazem parte do processo. “É um eterno recomeço”, destaca, pontuando que a abstinência é o único caminho possível.

Álcool

O álcool é a primeira grande porta de entrada para o mundo das drogas. Um dos fatores complicadores, na avalição da psicóloga, é quenão há apoio no nível social, uma vez que é uma droga lícita, de fácil acesso e com propagandas que incentivam o consumo. A bebida acaba sendo uma escolha rápida para o alívio de sentimentos como ansiedade, tristeza ou solidão. O que os serviços de saúde buscam mostrar, entretanto, é que esse atalho não é o melhor caminho para lidar com os problemas: há meios de resolver as angústias de uma forma saudável. “Existe um outro mundo possível”, afirma. 

Família

O problema não atinge apenas o dependente, mas todos do seu convívio, por isso é importante que todos participem do processo. “A família é atingida por esse tsunami provocado pela dependência”, comenta a coordenadora, informando que existem grupos voltados apenas para os familiares. Para os que ainda não querem se expor ou que buscam ajuda para convencer o dependente a iniciar um tratamento, o Caps-ad também serve como espaço para orientações.  

É a família, aliás, que costuma insistir no tratamento, sobretudo quando o dependente é adolescente. Embora o desejo de se livrar das drogas seja fundamental para o sucesso do processo terapêutico, a resistência inicial pode ser trabalhada durante o atendimento. Há casos em que a busca por ajuda ocorre depois de duas décadas de convívio com a dependência química, motivado, sobretudo, quando os sintomas físicos começam a dar sinais. “Quanto mais cedo a pessoa buscar tratamento, melhor. Quanto mais tempo na dependência, maiores as perdas”, salienta. 

Perfil

Usuários de álcool e cocaína são os que mais demoram a buscar ajuda, pois essas drogas levam mais tempo para começar a causar prejuízos. O crack, em contrapartida, é mais devastador, e em poucos meses os danos já são visíveis. Até mesmo por questões hormonais, de maneira geral as mulheres são atingidas mais rapidamente pelos sintomas. Entretanto, a maioria dos pacientes são do sexo masculino. Juliana explica que, embora o abuso de substâncias tenha crescido entre as mulheres, muitas vezes o consumo é escondido, até mesmo por conta do preconceito. 

Grupos de motivação 

O Caps-ad está aberto para quem precisa de ajuda. Ao procurar o serviço, é realizada uma consulta que encaminhará para o tratamento. Em alguns casos são necessárias sessões individuais e a prescrição de medicação. Entretanto, o carro-chefe é o trabalho desenvolvido dentro dos grupos de motivação. Com intermédio de um profissional, os dependentes são convidados a dividir com os demais sua história e seu sofrimento. “Compartilhar é terapêutico”, garante a psicóloga. Não é por acaso, segundo ela, que grupos como Narcóticos Anônimos (NA) e Alcoólicos Anônimos (AA) funcionam há décadas. O apoio mútuo faz a diferença. 

Para os que querem escrever um novo capítulo nas suas histórias, o centro também auxilia no encaminhamento para voltar a estudar, frequentar cursos profissionalizantes ou buscar a reinserção no mundo do trabalho. A rede conta ainda com a Comunidade Terapêutica Rural, localizada na localidade de Passo Velho, custeada totalmente via Sistema Único de Saúde (SUS). Em sete anos, 450 pessoas já foram beneficiadas. A participação é voluntária e antes do encaminhamento os dependentes participam de um período preparatório intensivo de atividades dentro do próprio Caps-ad. “É preciso encontrar um outro sentido para a vida que até então se resumia à droga”, explica, dizendo que para muitos a espiritualidade consegue cumprir este papel. 

Adolescência e prevenção 

Embora o foco do Caps-ad seja no tratamento, outros órgãos municipais atuam em trabalhos de prevenção. O Programa de Saúde na Escola (PSE) promove palestras nas quais o assunto é tratado de maneira atrativa, focando na necessidade de fazer escolhas saudáveis e sem propagar um discurso de medo – que, segundo Juliana, pode ter efeito contrário. O diálogo sobre o tema deve ocorrer em casa. A orientação da psicóloga é que, além de mostrar o lado ruim das drogas, os pais possam dar o exemplo, e, assim, ajudar os filhos a fazerem boas escolhas na vida. 

A adolescência é uma fase que naturalmente convida a experimentações e é quando muitos têm o primeiro contato com as drogas. É o período em que o desejo de ser dono da própria vida ganha força e em que os conselhos dos mais velhos nem sempre surtem efeitos. Outro complicador é a incapacidade dos adolescentes em lidar com a frustração, e o imediatismo em querer resolver os problemas. 


 

Precisa de ajuda?

O Caps-ad está localizado na rua 15 de novembro, 132, bairro Planalto (próximo ao CTG Laço Velho), em Bento Gonçalves. O atendimento ocorre de segunda a sexta-feira, das 7h30 às 11h30 e das 13h30 às 17h30. Outras informações podem ser obtidas pelo telefone (54) 3052 0114.



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