Geral
05/12/2018 08:08:59, escrita por Carina Furlanetto

Amor em dose tripla

Se ouvir um “eu te amo mamãe” já arranca um sorriso, imagina três ao mesmo tempo. O dia 15 de fevereiro de 2013 dividiu a vida dos Reginato e dos Zuffo em um antes e um depois. Em Faria Lemos, a casa da família praticamente virou ponto de referência: é ali que moram os trigêmeos. Alice, Arthur e Isabella foram planejados com muito amor e tornaram real o grande sonho de Daiana Reginato Zuffo, de 35 anos, transformando-a em mãe. 

“Não tem um bebê na minha barriga. Tem três”. Foi assim que ela comunicou gravidez em dose tripla à família. Ela e o marido, Gerson Zuffo – com quem é casada há 10 anos – desejavam ser pais, mas sabiam que haveria dificuldades no processo por conta da síndrome dos ovários policísticos. Após insucesso nas tentativas, eles recorreram à reprodução assistida.  


 

Respeitando as normas vigentes, foram transferidos apenas dois embriões para o útero. As incertezas sobre a efetividade do tratamento eram grandes. A medição da dosagem do hormônio Beta HCG, embora confirmasse a gestação, estava com valores diferentes do esperado. Daiana explica que o primeiro exame de imagem pouco revelou, apenas confirmou que ali havia uma “sementinha”. Na segunda ecografia, lembra que estava menos esperançosa porque as taxas hormonais seguiam com números conflitantes. Ela até percebeu que havia três bolinhas no monitor, mas não entendia do que se tratava. Quando a notícia veio, ela e o marido foram tomados por um misto de sentimentos.     

Conforme a explicação médica, não houve a divisão de um dos óvulos fecundados – o que justifica-se ao fato de as duas meninas não serem idênticas. Os dois embriões transferidos se desenvolveram e o terceiro bebê veio de forma natural. “Eu brinco que foi uma promoção de pague dois, leve três”, diverte-se. 

Os nomes começaram a ser discutidos ainda na fase de planejamento da gravidez. Se fosse menino havia consenso para Arthur; caso fosse menina, os dois estavam divididos entre Isabella e Alice. Acabaram não precisando escolher. “Deus sabe o que faz. Se me deu três, era porque era para ter três”, acredita.

LP Fotografias
 

A gravidez exigiu cuidados. Na 21ª semana, Daiana desenvolveu pré-eclâmpsia e precisou afastar-se da escola em que trabalhava como secretária. As internações foram frequentes até a 33ª semana. “Passei o Natal e o Ano Novo no hospital, mas não me arrependo”, garante. Periodicamente eram repetidas ecografias morfológicas para acompanhar o desenvolvimento de um dos fetos – Alice – que era o menor. Na 33ª semana, o exame revelou que o cordão umbilical já não estava mais a alimentando, e seria mais fácil mantê-la viva do “lado de fora”. O parto foi antecipado para aquele mesmo dia e os três bebês vieram ao mundo: Isabella, às 16h21, Arthur, às 16h22 e Alice, às 16h23. 
Apenas Isabella foi direto para o quarto; Arthur foi para a UTI por conta de uma pneumonia e lá permaneceu por uma semana; Alice, que nasceu com apenas 1,05kg, ficou por mais tempo internada: 42 dias na UTI para ganho de peso. Próximo à Páscoa daquele ano, quando Alice estava quase tendo alta, Isabella se engasgou e foi internada por três dias. As duas irmãs foram transferidas juntas para o quarto. “Digo que o Arthur levou a Alice para a UTI e a Isabella foi buscar”, conta a mãe.

A casa precisou de adaptações – a sala virou um quarto, por exemplo – assim como a rotina da família. O fato de morar na mesma casa que os pais facilitou a divisão dos cuidados. Familiares, vizinhos e amigos também se prontificaram a ajudar no revezamento das funções. As primeiras idas ao pediatra eram um evento: era preciso dois carros para levar todos. Os números também impressionam: eram gastas 900 fraldas por mês e uma lata de leite a cada um dia e meio. “Os três primeiros meses não foram fáceis porque os bebês sofreram com refluxo. Eu chorava junto. Mas passou a fase difícil e a gente acaba esquecendo todo o sofrimento. Agora eles são a alegria de todo mundo”, recorda. 

Desde o ano passado, os trigêmeos – hoje com cinco anos – começaram a ir para a escola. Quem mais sentiu dificuldades de adaptação foi a mãe, que passou a ficar sozinha em casa no período da tarde sem a companhia dos pequenos. “Não me imagino sem eles”, comenta. Desde que precisou se afastar do trabalho durante a gravidez, ela se dedica aos cuidados da casa e das crianças. Nas horas vagas, gosta de fazer artesanato. Em breve, ela pretende voltar a trabalhar por apenas meio-turno, conciliando com o horário das aulas dos filhos. 
Ela conta que os irmãos são bastante companheiros e se preocupam uns com os outros. 

Se algum não vai à aula porque está doente, os outros querem ficar em casa para ajudar nos cuidados. Juntos, eles brincam de casinha – Arthur faz o papel de pai. As meninas são apaixonadas por animais e fazem questão de ir todas as manhãs com o avô alimentar os passarinhos que ele cria. A família é católica e procura ensinar esses valores aos pequenos, como a gratidão – os três já sabem que devem agradecer à médica Dra. Ângela Marcon D’Avila por terem vindo ao mundo. 


Entre as histórias engraçadas envolvendo a cumplicidade do trio, ela lembra de uma vez que foram às pressas para o hospital porque Alice reclamava de uma dor de barriga repentina. Somente na frente da pediatra, depois de pagar por um chamado de emergência, é que o mistério foi desvendado: era um chute que ela havia levado de Arthur por tê-lo acertado com um livro. 

Ser mãe mudou completamente a vida de Daiana, em diferentes aspectos. Se antes ela era mais apegada aos bens materiais – a ponto de ficar chateada quando os objetos quebrassem ou estragassem – hoje ela aprendeu a valorizar os sentimentos. Ela garante que o amor que recebe não tem preço que pague. “Quando eu era criança e perguntavam o que eu queria ser quando crescer, eu falava que queria ser médica. Mas se hoje eu voltasse no tempo, eu diria que meu desejo era ser mãe. Faria tudo de novo”, resume. 


 

Esta é a 76ª reportagem da Série “Vida de...”, uma das ações de comemoração aos 10 anos do SERRANOSSA e que tem como objetivo contar histórias de pessoas comuns, mostrando suas alegrias, dificuldades, desafios e superações e, através de seus relatos, incentivar o respeito. 



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