O sonho de Giordano Bruno - Quantas pessoas morreram por suas ideias?

Por: Felipe Sandrin | 10/02/2015 00:00:00

Em 2012, escrevi um texto para o SERRANOSSA chamado “Os Três Pontos no Céu de Marte”. Na época, dávamos nossos primeiros passos por lá. Na verdade, um robô os dava. Tenho um trecho desse texto escrito em uma das paredes do meu quarto:

“Do céu de Marte, veem-se três grandes pontos, três planetas, um deles, o nosso. Lá longe, há um robô, feito por nós, humanos, em outro planeta, a 560 milhões de quilômetros. Ele nos transmite o brando do inabitável, a imaginação se tornando quase que palpável. Esse robô não voltará. Eis sua missão: ser nossos olhos enquanto suas peças funcionarem”.

Nesta semana, foi anunciada a descoberta de água em Marte através deste mesmo robô. Onde há água, há vida – ou houve ou talvez venha a haver –, mas o mais importante é que água e vida andam juntas. Parece piada que há alguns anos atrás, nas rodas de conversa, surgisse a pergunta: vocês acreditam que exista vida em outros planetas? 

Richard Dawkins é professor emérito de Biologia em Oxford e reformulador do Darwinismo. Recentemente, li uma entrevista incrível dele e vou tentar resumi-la aqui. “Vamos imaginar que o surgimento de vida em algum planeta seja algo estupidamente improvável, tão improvável quanto uma mesma pessoa ganhar 50 vezes na Megasena. Mas, sabe de uma coisa? Mesmo se a vida for algo tão difícil de acontecer, ainda assim, ela seria abundante no universo. Uma chance em cem bilhões pode parecer muito aqui na Terra, mas, no universo, esses cem bilhões não significam nada. Pense que as estimativas mais humildes indicam que existem 10 trilhões de bilhões de estrelas no universo observável (ou 10²² , o número 1 seguido de 22 zeros, caso você prefira uma notação mais científica). Um universo assim destrói qualquer estatística. Assim, se a vida surgiu em um único planeta em cada sistema solar (como parece ter sido o caso neste aqui), e só um em cada bilhão de sistemas solares teve essa sorte, existiriam dez trilhões de planetas com vida”.

Confundiu-se? Aconselho a ler de novo, ler não somente até entender, mas sim até começar a imaginar. Pois não estamos falando de grandeza, mas da nossa pequenez, mesquinhez e insistente arrogância perante o todo.

Giordano Bruno teve um sonho. Neste sonho, ele negligenciou seu medo e, diante da coragem, ele voou: “eu abri minhas asas e flutuei pelo infinito. Deixei para trás o que outros se esforçavam para ver de longe. Eu vi que o sol era só mais uma estrela e que as estrelas eram outros sóis, cada uma cercada de outras terras como a nossa. A revelação dessa imensidão foi como se apaixonar”. 

Bruno passou a viajar pela Europa proclamando sua crença no infinito, acreditando que outros abraçariam sua ideia, que se apaixonariam pelas possibilidades. Porém, pelo contrário, ele foi excomungado da igreja, expulso da maioria dos países e, em seguida, preso por oito anos. Apesar de torturado, Giordano Bruno não renunciava a sua ideia de que a Terra não era o centro do universo. Em 17 de fevereiro de 1600, ele teve a voz calada por um objeto de madeira posto em sua boca e foi queimado vivo em praça pública. Dez anos depois, Galileu olhou por um telescópio pela primeira vez e viu que Bruno estava certo.

Quantas pessoas morreram por suas ideias? Quantas dessas pessoas preferiram abdicar de suas vidas para manterem suas verdades vivas? Aquele robô que navega só nas imensidões desérticas de outro planeta não é movido somente pela necessidade de nossa mente curiosa. A capacidade que o fez possível é a coragem de homens como Giordano Bruno. E só por isso já vale a pena termos ido tão longe.


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Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: felipesandrin@hotmail.com




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