A inveja disfarçada de ética

Por: Felipe Sandrin | 04/01/2016 00:00:00

Procurei, mas não encontrei. Restou-me, em uma caminhada, trabalhar uma ideia que nunca vi ser abordada nem mesmo pelos mais conceituados filósofos – o que não é de se estranhar, visto que as mentes mais incríveis que aqui viveram já deixaram de habitar.
Talvez nosso novo velho mundo seja, pela primeira vez, tão novo. Costumo repetir que, se alguém dormisse no ano 1000 e acordasse em 1300, nada de tão novo veria. Agora, se alguém dormisse em 1990 e acordasse nos dias de hoje, seria um viajante totalmente perdido em um planeta quase que reeditado pela tecnologia das conexões.
Então, não é de se surpreender que as novas engrenagens da ética não tenham se consolidado nem mesmo na cabeça dos estudiosos. Levanto, então, uma nova tese, na qual pretendo me aprofundar e, dentro de algumas décadas, quem sabe, publicá-la: a inveja como uma das engrenagens da ética.
Percebam o quanto nos dói quando, diante de tanto trabalho duro e dedicação, percebemos pessoas se erguerem por meios ilícitos. Como exemplo, podemos nos valer dos políticos que, eleitos para administrar, roubam nosso suado dinheiro. Ou mesmo dos grandes empresários que sobem os zeros das contas bancárias a galope, mas o fazem por meios fraudulentos. Que sensação nos causa a riqueza do outro construída através de formas as quais julgamos errôneas? Inveja! Sim, pois, se eu preciso suar sangue para agregar status social, eles também deveriam.
A inveja se torna, então, uma nova engrenagem da ética. Digo “nova” porque, pela primeira vez, a maioria dos habitantes deste belo globo azul possui a ferramenta que permite um púlpito maior do que a mesa de jantar da família. De certa forma, todas as pessoas conectadas ao Facebook, por exemplo, são também formadoras de opinião, podendo, assim, proliferar a informação e a própria opinião sobre cada caso.
Por que odiamos os que tiram vantagem das falhas do sistema para crescer socialmente? Por que somos todos éticos? Ora, se assim fôssemos, o Brasil não seria o que é. Sejamos realistas: no mínimo metade das pessoas que aqui vivem não são éticas – faltaria a elas a inteligência para montarem um esquema fraudulento que se valesse?
Se faltam artifícios para criarmos uma máquina de roubo indetectável, logo o que nos sobra é execrar aqueles que conseguiram se beneficiar das falhas do sistema. Em alguns casos, mesmo os que enriquecem de forma correta.
Obviamente, a esmagadora maioria não está pronta para perceber os próprios desvios de conduta. Temos uma autoimagem que deve ser preservada: “Eu, corrupto? Injusto? Jamais!”.
A inveja aparece como uma falsa nova engrenagem da ética e nós estamos prontos a julgar. Porém, surge o grande ponto: se a ética é o conjunto de valores que fazem da sociedade um meio de convívio estável e justo, se a ética surge como senso de justiça, como pode ser justa a decisão firmada pelo ponto de vista da inveja?
Você pode se achar imune ao assunto que aqui abordo, mas pare para pensar em quantas pessoas já falaram mal de você pelas costas, quantas já lhe caluniaram pelo simples fato de invejarem o que você conseguiu com trabalho honesto?
Se a inveja é um pecado – e ela é – logo, precisa ser disfarçada para não nos tornarmos visíveis invejosos. Nada mais conveniente, então, do que disfarçá-la em formas éticas e justas.
Escute os discursos dos que lhe cercam, perceba se, por trás de palavras justas, não mora a velha imortal inveja. E tome cuidado, invejar é transmissível.


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Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: felipesandrin@hotmail.com




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