Eu sou o eleitor que nunca mais vota

Por: Greice Scotton Locatelli | 10/05/2018 06:00:42

Há duas semanas, escrevi neste mesmo espaço que eu sou do tipo “cliente que nunca mais volta”. Pois bem, às vésperas de mais uma eleição, quero dizer que, tal qual o consumidor insatisfeito que responde ao mau atendimento com a troca de estabelecimento, eu sou o eleitor que rebate na urna o descaso de um candidato.

Admito que, como a maioria esmagadora dos brasileiros, cobro bem menos do que deveria as promessas dos candidatos. Mas, embora o faça pouco, eu faço. E nem precisa ser nada muito importante. Há pouco tempo, por exemplo, sugeri um projeto a um vereador no qual votei – foi a terceira sugestão que dei a ele. Era uma coisa simples, que ajudaria muito a comunidade e que não teria custos. Recebi uma resposta padrão do tipo “obrigado, amiga”. Alguns dias depois, tive a oportunidade de falar pessoalmente sobre o assunto. Visivelmente constrangido, ele nem precisou se justificar: deu para deduzir só pela expressão de desconcerto dele que outra pessoa havia respondido a sugestão e que a ideia simplesmente caiu no limbo do esquecimento político – como tantas outras. 

Ok, eu sei que muitas vezes cabe ao assessor dar andamento a certas demandas. Assim como sei que surgem centenas de ideias e a maioria delas é inviável por algum motivo – inclusive falta de vontade, infelizmente. Mas considerei uma falta de respeito – não comigo, mas com a comunidade – o vereador nem sequer cobrar que o assessor, pago com dinheiro público, repasse as propostas que recebe a quem tem o poder de mudar algo que não está funcionando. E me dei conta: o que terá acontecido com as outras duas sugestões que fiz e para as quais não fui insistente na resposta? E se entre as ideias que as pessoas dão – e não são consideradas – tiver alguma que seja viável? Como dizem, duas cabeças pensam melhor do que uma!

Esse candidato, que eu ajudei a eleger no passado, perdeu o meu voto por omissão. Pode ser algo pequeno se comparado a tantas crises morais que vivemos nos dias de hoje e frente a tantos crimes graves que alguns políticos cometem, mas para mim foi suficiente. 

O mesmo aconteceu com uma colega de trabalho que enviou um e-mail a um senador questionando uma determinada postura política e recebeu como resposta outro “texto padrão” que nas entrelinhas alegava que ele era obrigado a seguir o que o partido decidia. Assim como eu, foi o suficiente para ela se decepcionar e mudar o voto.

Você pode considerar exagero ou achar que nos ofendemos por coisas que não se justificam. Julgar os outros sem conhecer a realidade deles é algo que todos nós fazemos todos os dias. O que me ofendeu não foi a minha proposta não ter sido aceita, mas o fato de não ter passado ao menos por uma avaliação – só para constar, não faria a menor diferença para a minha “vaidade”, pois a única pessoa que sabia que a sugestão havia sido minha era o vereador – ou, no caso, o assessor dele. O que me preocupa é a ideia de ter caído no mesmo balaio de tantas outras que poderiam melhorar a vida das pessoas mas passam batidas por falta de vontade, pró-atividade, comunicação. O que me fez mudar o meu voto foi perceber que candidato em que eu apostei permite que não seja dada vez às opiniões de quem o ajudou a se eleger e faz pouco caso do que quem vive na cidade tem a dizer – sim, no momento em que ele não cobra que o assessor repasse o que recebe o descaso está caracterizado. 

Corrupção, omissão, descaso. Tudo que é sinônimo de desrespeito para mim é suficiente para deixar de votar em determinada pessoa. Neste 7 de outubro, mais do que escolher um candidato, escolha alguém que respeite você e o futuro que você quer para o país. E, depois de eleito, cobre que esse respeito seja o fio condutor do mandato: seja pelas pessoas, seja pelo dinheiro público. É assim que se muda um país. Um voto por vez.
 


É proibida a reprodução, total ou parcial, do texto e de todo o conteúdo sem autorização expressa do Grupo SERRANOSSA.

Greice Scotton Locatelli

Greice Scotton Locatelli

 



Editora-chefe do Grupo SERRANOSSA desde 2010, é formada em Comunicação Social - Habilitação Jornalismo, pela Unisinos, e tem na Língua Portuguesa e na Fotografia duas de suas maiores paixões.



O SERRANOSSA não se responsabiliza pelas opiniões expressadas nos comentários publicados no portal.



Leia a Edição
IMPRESSA


Edição 702
22/03/2019 08:00:55
Edições Anteriores

Curta o SERRANOSSA