Eu tive infância!

Por: Greice Scotton Locatelli | 19/10/2018 06:00:46

Mais um Dia das Crianças passou, trazendo reflexão. Eu fui uma criança feliz e isso para mim é motivo de muito orgulho. Tudo parecia mais simples, sem as modernidades de hoje. O mais “perigoso” era assistir televisão muito perto – podia prejudicar “as vistas”, diziam os mais velhos – queria ver a reação dos meus avós vendo as novas gerações viciadas em tecnologia desde bebês e já tendo problemas de saúde em função disso. Quando faltava energia, ninguém entrava em crise. A gente se reunia na cozinha, com algumas velas, e jogava carta. Antes de dormir, ler um pouco ajudava a tranquilizar. 

A casa dos meus pais ficava na frente de onde moravam meus avós e ao lado dos meus tios.  Os vizinhos se conheciam e costumavam ajudar uns aos outros, mesmo os que não eram da família – e por “conhecer” entenda saber desde detalhes sobre a vida pessoal até qual seria a reação ao ter a vidraça atingida por uma bola. Sim, na Bento Gonçalves da década de 1980 as ruas tinham mais crianças jogando bola do que carros transitando. Os vizinhos ranzinzas são a única coisa que não mudou (rsrsrs).

Eu ia e voltava a pé da escola, muitas vezes sozinha. Comunicação só via telefone público (o saudoso orelhão) – e se não tivesse ficha, a ligação tinha que ser a cobrar. Como era difícil saber a sequência de números e códigos! Em casa, telefone fixo, nada de celular, mensagem de texto, WhatsApp. Para saber a que horas as pessoas iriam chegar, elas tinham que conversar. Sim, as pessoas conversavam sem precisar de um telefone entre elas!

E quer saber? Hoje, mais do que nunca, posso afirmar com convicção que eu tive uma infância extremamente feliz.
Eu vivi intensamente meus dias de criança. Andei de bicicleta, ralei o joelho e o queixo muitas vezes, tive hematomas de todos os tamanhos e formatos nas pernas – faço isso até hoje, já que continuo meio desastrada. Posso me orgulhar de dizer que comi cenouras direto da horta, me diverti até altas horas com os vizinhos na rua, brinquei de boneca, de carrinho, de amarelinha, tomei banhos de chuva e caldos de cana feitos na hora, gastei quilos de giz rabiscando calçada e aprendi a amar a natureza. Era uma diversão saudável, sem eletrônicos, sem horários, sem comparação com o que chamamos de infância atualmente.

As crianças de hoje têm computador, celular, redes sociais, jogos eletrônicos. Informação a um clique, fácil, rápido... e superficial. Talvez jamais saibam o quanto era complexo pesquisar em enciclopédia ou guardar dinheiro durante meses para comprar o disco do cantor favorito. São escoltadas por adultos o tempo todo em razão da insegurança. Têm agendas típicas de gente grande. Alienadas pela tecnologia, muitas vezes não aprendem a valorizar o simples da vida. E isso é muito triste.

Na semana passada, um projeto que resgata brincadeiras antigas, divulgado pelo SERRANOSSA, me fez lembrar o quanto a simplicidade é importante, a convivência e o diálogo são essenciais e como era bom viver quando a modernidade ainda ficava restrita às mentes férteis de quem produzia filmes de ficção científica.

Pior é perceber o quanto isso pode afastar pais, mães, filhos, avós e como as agendas abarrotadas de atividades extracurriculares promovem uma “terceirização” da educação. Talvez esteja aí a resposta para a falta de proatividade das futuras gerações, do querer tudo pronto, da falta de empatia. Nesse caso, retroceder poderia resolver muitos dos conflitos morais que vivemos hoje. 

Tomara que possamos encontrar um equilíbrio entre a facilidade que a tecnologia trouxe com o prazer de viver as coisas simples, típico do passado. Um grande desafio, sobretudo para pessoas da minha geração, que passaram justamente por esse período relativamente curto, mas intenso, de mudanças de todos os tipos.
 


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Greice Scotton Locatelli

Greice Scotton Locatelli

 



Editora-chefe do Grupo SERRANOSSA desde 2010, é formada em Comunicação Social - Habilitação Jornalismo, pela Unisinos, e tem na Língua Portuguesa e na Fotografia duas de suas maiores paixões.



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