O preço da liberdade

Por: Felipe Sandrin | 19/10/2018 06:00:18

“O preço da liberdade é a eterna vigilância”. A frase atribuída a John Philpot Curran é amplamente conhecida por aqueles que, como eu, pregam o liberalismo. Mas será mesmo que é apenas esse o preço da liberdade? Será que nossa escravidão perante a vigilância é o preço mais alto a ser pago a fim de garantirmos nossas liberdades individuais?

Em algum lugar de nossa mente giram as engrenagens do total questionamento. Não sabemos de fato sobre o melhor ou pior: o que fazemos inconscientemente é a montagem desse quebra-cabeça pela sobrevivência. Imploramos por resquícios dessa sobrevivência sem saber que assim fazemos, e ali, na pequena parte sobre a qual não delegamos qualquer existência, reverberará nossa total angústia.

Mais do que a vigilância, a liberdade implica no saber-se instável. Somos livres? Sim, mas para quê? Decidir se devemos ficar ou não em um emprego ou em um relacionamento? Somos livres para escolher candidatos que virão a nos governar? Livres para irmos embora diante da infelicidade buscando, enfim, a alegria? Somos livres para ir? Se assim somos, acreditamos e nos sentimos livres, então isso implica em outra certeza: o outro também é.

Mais do que a vigilância, a liberdade nos cobra esse preço. A liberdade nos implica ao cruel castigo do amanhã: “será que a pessoa que está ao meu lado hoje também estará amanhã, quando eu abrir os olhos? Será que este emprego do qual posso ser demitido hoje seguirá me fazendo útil ou receberei um comunicado de dispensa? Será?”

Podemos nos fingir livres quanto às nossas escolhas, mas, se somos escravos das consequências delas, então qual o verdadeiro preço dessa tão proclamada liberdade?

Não há outro espécime tão obstinado em desenvolver suas anunciadas potencialidades. Assim nos tornamos dominantes. Nossa evolução cognitiva nos permitiu chegar a esse ponto, a essa encruzilhada de emoções indefinidas que nos lastimam e, por vezes, nos fazem implorar por um vácuo de pensamentos, um espaço onde nada resida ao ponto de nos fazer pensar.

Vivemos a Era da informação, da produção em massa, da felicidade em pílulas. Ao mesmo tempo, vivemos a total desinformação, a estagnação e a tristeza absoluta que, por não poder ser explicada, se torna ainda mais dilacerante.
Aprendemos a questionar, mas nunca soubemos lidar com a falta de respostas. Esse se tornou o preço dessa liberdade: uma angústia sem fim que chega pela manhã quando tomamos o primeiro gole de café.

Pela janela, vejo uma fila de carros, uma fila de pessoas e várias de concreto e asfalto. Dia e noite, nunca para: luzes de apartamentos que ligam e desligam ao ritmo frenético da própria inquietude. É notável nosso avanço em velocidade, mas para onde estamos indo para chegarmos ao ponto de corrermos tanto?

A liberdade e a eterna vigilância. Por fim talvez esse seja o preço: o sentimento de que uma corrente nos separa o tempo todo de nossos reais objetivos. Uma nuvem densa a pairar sobre nossas crenças. Um medo constante de não saber-se algo fundamental e, assim, ver o gelo fino partir abaixo dos nossos pés.

Que Era inconstante vivemos! Logo nós, homens e mulheres modernos. Pela primeira vez diante de tantas respostas e, talvez mais do que nunca, tão sabidamente perdidos.
 


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Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: felipesandrin@hotmail.com



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