A hipocrisia da violência

Por: Greice Scotton Locatelli | 26/10/2018 06:00:31

Aos 14, ele matou outro adolescente que não quis entregar o celular durante um assalto. Aos 17, foi morto. Tal qual a história do jovem que cometeu o primeiro assalto e feriu pessoas um mês depois do aniversário de 18 anos e é suspeito de outros três assassinatos na sequência, contada recentemente pelo SERRANOSSA, os relatos assustam e preocupam. Infelizmente, ambas são verídicas e, mais infelizmente ainda, aconteceram em Bento Gonçalves. Sim, a mesma Bento Gonçalves onde há 20 anos se podia andar tranquilamente pelas ruas hoje é marcada pela violência – assim como milhares de outras cidades.

No ano passado, foram 34 assassinatos – um recorde, que tornou 2017 o mais violento da história. Mal sabíamos que 2018 seria pior. Ainda faltam 66 dias para o final do ano e já computamos 44 casos desse tipo. Há alguns meses, eu estimei que haveria mais de 50 mortes neste ano em Bento e muita gente achou exagero. “Você é muito negativa”, disseram alguns. Não, eu não sou negativa.  Ano que vem completo 20 anos de carreira tendo visto todo tipo de barbaridade quando o assunto é violência e isso, por si só, me credencia a “apostar” nas estatísticas. Lamentavelmente, se continuar no ritmo de um homicídio por semana, a tendência é que até supere a marca de 50 casos. 

Essa mesma experiência me mostra outro lado dessa moeda que me deixa profundamente decepcionada. Muito se debate quando o assunto é segurança pública e todo mundo tem uma solução mágica e um dedo em riste em busca de culpados. O prefeito, o governador, o comandante da polícia, o poste que sustenta a lâmpada, o clima, o unicórnio multicolorido que saltita perto de um arco-íris neon. Todo mundo tem a fórmula e o palpite perfeito para se resolver o problema. Da boca para fora. 

O que se tem visto em Bento é tão lamentável quanto a violência em si. Se falta efetivo, as pessoas gritam que não há policiais nas ruas. Se o reforço chega, esbravejam porque está nos lugares errados (na visão delas). Se há policiamento nos bairros mais violentos, se queixam porque não se vigia o resto da cidade. Se estão no centro da cidade, é por isso que acontecem os homicídios na periferia. 

Quer saber? Se poupe, me poupe e nos poupe. Não sejamos hipócritas de achar que é possível evitar a violência de um dia para o outro. Bento – ou qualquer outra cidade – poderia ter 10.000 policiais nas ruas e não seria nem perto do suficiente porque não há como se estar em todos os lugares ao mesmo tempo, o tempo todo. Violência se reprime com políticas de longo prazo, evitando o primeiro contato de crianças com as drogas e tendo uma economia forte em que as pessoas possam sair do desemprego e trabalhar para se sustentar, por exemplo. Não existe milagre, nem solução mágica imediata. Quem dera!

E digo mais: as mortes têm ocorrido, em sua esmagadora maioria, em razão do envolvimento com o tráfico de drogas – dos 44 casos deste ano, apenas uma meia dúzia não teve ligação direta com esse crime. É lamentável que tantas vidas se percam em função disso, mas é uma realidade que devemos encarar. O tráfico existe em Bento há muitos anos – há famílias inteiras que passaram a vida toda traficando. Agora o cenário tomou proporções assustadoras, com entrada de outros grupos e disputas. Mas, de novo, não sejamos hipócritas: só há tráfico porque há quem compre. E entre os consumidores tem muita gente que acha que fumar um baseado é “de boas” e que ajuda a alimentar esse sistema que, por sua vez, cobra seu preço através da violência. 

Bento clama por reforço desde sempre e quando ele vem não cabe a nós definirmos onde e quando os policiais devem ficar. Há instituições que trabalham com isso diariamente e que contam com a experiência necessária para escolher a melhor estratégia. Aliás, esse é o único lado ruim da prevenção: não podermos computar quantos crimes foram evitados. Talvez, se pudéssemos, seria mais fácil argumentar.

E por falar em hipocrisia, mais um apelo: quem reclama do excesso de policiamento é geralmente quem deve algo – o motorista que perdeu a carteira e segue dirigindo; aquele que bebeu e assumiu o risco ao pegar o volante e de machucar alguém; o foragido da Justiça que prefere o anonimato a voltar para a prisão; o adolescente que acha bonito fazer “racha” com o carro do pai. De novo: me poupe, se poupe, nos poupe. Segurança pública é dever de todos e vai desde seguir as leis até cobrar de quem as faz.


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Greice Scotton Locatelli

Greice Scotton Locatelli

 



Editora-chefe do Grupo SERRANOSSA desde 2010, é formada em Comunicação Social - Habilitação Jornalismo, pela Unisinos, e tem na Língua Portuguesa e na Fotografia duas de suas maiores paixões.



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