Tempos frágeis, corações inquietos

Por: Felipe Sandrin | 13/04/2016 00:00:00

O peito estufa em exageros: ou fingimos nada querer ou imploramos por um tudo que desconhecemos. Alimentamos apegos ao ponto de reconhecê-los e admiti-los. Estamos carentes demais. Carentes de outros, mas, acima de tudo, de nós mesmos.
Uma onda feminista se forma e atinge os homens ditos “bom partidos” como tsunami. Aos cafajestes, pelo contrário, surge como uma marolinha, onda fraca que serve para dar pulinhos e fazer desejos. O homem que busca estabilidade em uma relação se desespera ao perceber mulheres que querem as rédeas. Os cafajestes – ah, os cafajestes –, esses se lambuzam na dita “liberdade delas”.
Aliás, liberdade? Poucos a buscam realmente. Liberdade implica em responsabilidade pelos próprios atos. Porém, desde Adão e Eva tudo que o ser humano mais deseja é outro em quem possa jogar a culpa. Adão diz: “a culpa é de Eva”. Eva desespera-se: “não, a culpa é da serpente”. A serpente, por sua vez, incrimina a maçã. E, se a maçã falasse, culparia a macieira.
Tempos frágeis nos quais mulheres imploram por um pouco de algo que elas não sabem o quê. Por vezes, dizem necessitar de atenção, mas presença demais as cansa. Em outras, querem um cara decidido, mas um cara que planeja demais faz com que se perca o instinto de aventura. Por fim, não sabem o que querem e acham a solução em fingir que sabem. Aí, quando fingem saber, passam a bola do problema para os homens que, por sua vez, deixam a vaca ir de vez para o brejo.
Corações inquietos a cada propaganda de perfume, a cada dica nova que surge na nossa “timeline”. Dez truques para um bom relacionamento, vinte formas de enlouquecer alguém na cama. Tem gente que acredita, tenta anotar as dicas mentalmente. Mas quando chegamos nesse ponto, a máquina já deu defeito, não tem mais volta. Sempre que entramos na onda de arrumar alguma coisa, já dizemos para nós mesmos que o troço quebrou. E o que fazemos hoje quando algo quebra? Sim, substituímos.
É oferta pra todo lado, catálogos variados para problemas que até então nem sabíamos ter. O mundo vai lhe vender algum problema, basta folhear a revista, sentar em frente à TV, conversar com alguém por alguns minutos e pronto: detecta-se um problema, mais um problema para o seu já inquieto coração.
Sabem o melhor conselho que dou geralmente às mulheres? O que começou, acaba. Simples assim. Quer um relacionamento que dure para sempre? Não existe. Se tudo ocorrer bem, vai durar no máximo até você ou ele morrerem. Trágico? Não, realista. Se você não aceita a realidade, então você não aceita a vida e, se você não aceita a vida, que diabo de solução há para você?
O que começa, acaba. Simples assim. É racionalidade demais para você? Então talvez esteja na hora de parar com os seriados românticos e os filmes estrelados pela Julia Roberts.
Vai por mim, a vida se torna incrível quando você começa a acordar para a realidade de que você não pode controlá-la.
Sabem quem sente angústia? Quem já viveu coisas muito boas e guarda tais recordações. Orgulhe-se de ficar angustiado em um sábado à noite, pois esse é um sinal de que você já teve sábados incríveis. Fique alegre com a angústia que surge em um pôr-do-sol. Isso significa que você já dividiu outros tão incríveis quanto com alguém.
Gente, a vida é frágil mesmo e as pessoas que nos cercam são tão confusas quanto nós. O que começa acaba, lembre sempre disso para que seu álbum de lembranças não seja algo a ser escondido, mas, sim, visitado com alegria.
As suas expectativas são suas, somente suas. Não dependa de outro para que em você se manifeste os prazeres da vida.


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Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: felipesandrin@hotmail.com




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