Das perdas e aprendizados da vida

Por: Greice Scotton Locatelli | 11/01/2018 09:00:29

Dizem que o tempo é o remédio para tudo. Mas nem sempre funciona tão bem. Quando o assunto é uma perda, há um abismo entre a teoria superficial das frases feitas e a realidade.

Na última semana, a profissão que escolhi permitiu que eu aprendesse muita coisa nova sobre o luto. A conversa com a psicóloga Franciele Sassi, para a série especial “Vida de...”, foi tão esclarecedora quanto estarrecedora em alguns aspectos – você confere a reportagem completa nas páginas 2 e 3 desta edição.

Penso que esse contato com “um pouco de tudo” é um dos melhores aspectos de ser jornalista. Da mesma forma, considero uma obrigação repassar para você, leitor, informações que possam agregar positivamente à sua vida. 

Qualquer mudança que cause sofrimento é considerada luto, não só aquelas que envolvem a morte. Uma modificação no estilo de vida em função da crise pode ser um luto, assim como o fim de um relacionamento, a perda de um emprego ou até mesmo uma mudança de cidade. Não há regras nem denominadores comuns. Cada pessoa sente e reage de uma forma diferente, conforme o contexto. O tempo do luto também é algo que varia de pessoa para pessoa, ou seja, não dá para dizer que o tempo sara todas as feridas.

Outro aprendizado importante foi o de não usar frases-clichês na tentativa de consolar alguém enlutado (essa especialmente na hora da morte). Coisas tipo “vai passar”, “era para ser”, “Deus quis assim” são prejudiciais, você sabia? Eu não. Nunca tinha me dado conta de que esse tipo de afirmação menosprezava o sofrimento e poderia incentivar a pessoa a mascará-lo. E pensar que é algo tão normal!

Confesso que a conversa também cutucou algumas feridas e a proximidade do Dia dos Finados deixa tudo um pouco mais à flor da pele. É impossível, nessas horas, desvincular completamente a Greice jornalista da Greice pessoa comum, assim como é inevitável relacionar o que se aprende durante uma entrevista às próprias experiências.

Sempre pensei que o luto em função da morte não era um tabu propriamente dito para mim, talvez porque eu tenha sido obrigada a conviver com ele desde pequena. Perdi meu avô, Sérgido, uma das minhas principais referências de vida, quando tinha 8 anos de idade. Depois um tio, Raul, que teve câncer, e meu dindo, Ivanir, vítima de um grave acidente. Na adolescência, vários colegas de escola perderam a vida em uma época em que morriam mais jovens no trânsito do que vítimas de homicídio em Bento. Aí veio a carreira e a convivência com a morte se tornou quase “comum”. A perda da minha avó materna, Ircy, em 2009, no entanto, me levou a rever muitos conceitos de vida e, apesar de doer até hoje, fez com que eu me tornasse uma pessoa melhor. Depois da conversa com Franciele, no entanto, percebi que muitos desses lutos eu não vivi de uma maneira adequada.

Foi aí que a parte estarrecedora da entrevista veio à tona. Ela me falou sobre a constatação (baseada na própria experiência) de que em Bento Gonçalves as pessoas não se permitem sentir. De repente, foi como se uma grande obviedade, sempre abafada, tivesse gritado. Sim, é isso: foi um grande problema pessoal meu e é um dos grandes problemas de Bento Gonçalves. Não se permitir sentir – seja alegria ou tristeza – tem reflexos na nossa qualidade de vida. 

Hoje – finalmente! – a medicina começa a dar valor à saúde mental, não apenas ao bem-estar físico. A morte da minha avó talvez tenha sido o meu luto “menos pior” justamente porque eu me permiti sentir, chorar, me questionar e me culpar, como faz a maioria das pessoas que perdem alguém querido. Mas, depois da conversa com Franciele, me dei conta de que essa “autopermissão” foi momentânea. Eu me permiti sentir por um instante e logo vesti de novo a carapuça de alguém forte o tempo todo como fazem muitos dos bento-gonçalvenses.

Fico feliz que o jornalismo tenha me permitido compartilhar isso com você, leitor. Quando a gente começa a se preocupar em ter uma mente tão saudável quanto o corpo, o foco muda. Passamos a viver o presente, a nos aceitar como pessoas imperfeitas, a amar mais os outros. E quando há amor envolvido, tudo fica mais fácil, inclusive o luto e a vida em sociedade.


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Greice Scotton Locatelli

Greice Scotton Locatelli

 



Editora-chefe do Grupo SERRANOSSA desde 2010, é formada em Comunicação Social - Habilitação Jornalismo, pela Unisinos, e tem na Língua Portuguesa e na Fotografia duas de suas maiores paixões.



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