Quatro passos para a serenidade

Por: Felipe Sandrin | 15/04/2016 00:00:00

Vago por aí garimpando gente serena. Gosto de estudar os sintomas anteriores a essa invejável serenidade. Ao que parece, ninguém se conhece desde sempre assim, pelo contrário, apenas quem conviveu prestes a explodir conseguiu desencadear a tranquilidade.
O mundo está cheio de gente prestes a explodir e, hoje, me reconheço pertencendo a estes. Por um tempo tentei disfarçar, fingir que não. Até que uma dessas pessoas serenas me deu outra ideia. “Nós somos vapor, precisamos nos condensar ao máximo para, então, formar algo concreto que possa ser derrubado”. Explicação brilhante. No mesmo momento, senti um peso sair da minha cabeça.
É isso. Somos afligidos pelo não saber, mas há dois tipos de não saber: o primeiro nos aflige  pela ignorância aceita, já o segundo nos chega pelo conhecimento. Se você sente não saber pela incapacidade de buscar respostas, você viverá sempre à margem de uma assombrosa sensação de fracasso. Agora, se teu não saber se baseia em uma busca que resultou na consciência dos limites da sua capacidade humana, aí surge a sensação apaziguadora dos que encontraram a resposta sobre não termos resposta alguma.
A maioria das pessoas nunca consegue sair de tal aflição. Quando vejo alguém acima dos 40 anos cercado de problemas emocionais, me cerco de medos. Eu temo chegar nessa idade da mesma forma, temo chegar lá exatamente da mesma forma como estou agora: um poço de sensações deformadas por incertezas.
Você pode viver sua jovialidade assim, nesse tumultuoso mar de incertezas. Talvez seja até necessário diante do tanto de energia que nos cabe, porém, chegar aos 40 sobre o mesmo mar instável deve ser algo dilacerante. Eu não quero ser o mesmo mar revolto de hoje daqui a 10 anos e por isso busco pessoas serenas que possam me ajudar neste caminho. E o que mais percebi nelas?


1) Viva intensamente a revolta, a cegueira que te faz violento, mas nunca, jamais, abandone os livros que contam a história do homem. Só assim você perceberá que o mundo sempre foi mundo, mesmo antes de você nascer. Só assim você perceberá que tudo sempre foi assim. Isso lhe trará tranquilidade para sentar-se à sombra e rir dessa gente louca que lhe cerca.
2) Tenha prazer em algo simples e preserve esse prazer. Você ama café? Tome-o sem açúcar e nunca fazendo algo que lhe faça esquecer que neste exato momento você está tomando seu café.
3) Conviva no mínimo meia hora por dia apenas consigo. Que seja antes de dormir, que seja após o almoço. Durante esse período faça um esforço para esquecer seus compromissos. Se estiver muito difícil, foque no seu corpo, nos dedos dos pés, na sua respiração. Você vai perceber que dezenas de pensamentos vão começar a surgir, mas seu trabalho é impedir você mesmo de entrar em qualquer desses pensamentos.
4) Escute verdadeiramente as pessoas. Não formule respostas enquanto o outro fala, não pense em como vai continuar o assunto ou fique argumentando dentro de si. Apenas escute, apenas tente imaginar a exata situação que aquela pessoa descreve sem que você precise estar inserido dentro daquilo tudo.

Você deve estar pensando no quanto essas coisas são simples, mas tente apenas um dia de sua vida por em prática esses quatro pontos e você perceberá o quanto é difícil tamanha simplicidade. 
Agora, se você conseguir aplicar isso por um mês inteiro, então nascerá em você uma pessoa diferente, um mundo diferente. Você deixará de presenciar os dias e passará a vivê-los.
Eu apenas estou descrevendo o que encontrei nas pessoas mais serenas que conheci. Às vezes, o mínimo que podemos fazer é compartilhar a pessoa que gostaríamos de ser.

 


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Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: felipesandrin@hotmail.com




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