Despretensiosamente inspiradora

Por: Greice Scotton Locatelli | 11/09/2018 06:00:55

Na fila do supermercado, um homem que aparenta ter cerca de 50 anos de idade pede para a atendente 150g de queijo. Ela separa algumas fatias e põe na balança, que marca 159g, fechando o pacote em seguida. Furioso, ele reclama que veio mais do que ele pediu e, aos gritos, exige falar com o gerente, que chega em instantes e tenta, em vão, acalmá-lo. A funcionária, visivelmente sem reação, baixa a cabeça e entra em um depósito nos fundos da fiambreria, de onde se ouve dizer “mas eu não tenho como cortar as fatias”. 

A cena, lamentável e real, de tempos em tempos me faz lembrar o quanto alguns seres humanos não entenderam até hoje o significado das palavras “respeito” e “empatia”. Foi a partir dessa experiência pessoal que surgiu a ideia despretensiosa de criar a série “Vida de...”. O objetivo era mostrar as dificuldades e alegrias de pessoas comuns para que outras, sabendo dos bastidores, passassem a tratá-las com mais respeito.

28 de outubro de 2016 foi o dia em que essa empreitada teve início. Nem mesmo o mais otimista dos editores imaginaria a proporção que isso tomaria. A primeira história, do seu Dirceu Fritolli, foi contada há 743 dias – ele estava às vésperas de completar 100 anos de vida. Nesta semana, ele completou 102, “firme e forte”, me contou a também jornalista Patrícia Larentis, minha amiga de longa data e neta dele.

Desde então, foram 99 histórias contadas. A 100ª está publicada nesta edição (clique aqui). O assunto foi escolhido a dedo: a rotina das soldados Beatriz Klockner e Catherine Pithan, instrutoras do Programa Educacional de Resistência às Drogas e à Violência (Proerd) da Brigada Militar. Em um ano de violência recorde, em que noticiamos 46 homicídios (dois só nesta semana), a esmagadora maioria tendo ligação com o tráfico de drogas, quisemos inverter a pauta e, em vez de retratar só o lado sombrio dessa moeda, mostrar que há pessoas e instituições empenhadas em prevenir esses crimes desde cedo. 

Nesses dois anos, contamos histórias de todo tipo: do coveiro João Carlos, do borracheiro Darci, do artista de rua Vanderlei, da síndica Michele, da voluntária Valda, do agricultor Nei, do sapateiro Ciro, da comerciante Eliane, do papai-noel Danilo, do açougueiro Sandro, da “tia do churros” Sueli, entre tantas outras. Histórias inspiradoras, de casais que resolveram viajar o mundo ou morar em outros países, de gente que superou a dependência química, de quem recebeu uma doação de órgãos e de quem descobriu o amor através da adoção. Muitas histórias e experiências que nos inspiraram e nos mudaram como pessoas. Meu muito obrigado a todos que toparam participar dessa aventura como entrevistados e a todos que se empenharam na produção, em especial à jornalista Carina Furlanetto, que me ajudou na missão de levar a vocês muitas dessas histórias, à Jose Maia Alves pelo trabalho de revisão, à Yasmin Provenzi pelas diagramações especiais, à repórter Raquel Konrad pela ajuda e apoio, aos nossos diretores, Diogo e Ana Paula, pelo entusiasmo e incentivo, e a todos que sugeriram entrevistas ou nos auxiliaram no processo. 

Parar não está nos nossos planos por enquanto. Afinal, se teve algo que aprendemos com a série especial “Vida de...” é que o mundo segue carente de respeito. E incentivar comportamentos que tornem o mundo melhor é um dos nossos papéis primordiais enquanto jornalistas e formadores de opinião. Pode ser pouco, mas, se uma pessoa apenas se sensibilizar com a história de outra e passar a respeitá-la, terá sido uma vitória gigantesca. É a mesma filosofia do Proerd: se uma criança apenas repensar suas decisões e não entrar no mundo das drogas e do crime, terá sido uma vitória para a sociedade. 

Despretensiosamente como a vida seguiremos contando histórias e nos apaixonando cada dia mais por elas.


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Greice Scotton Locatelli

Greice Scotton Locatelli

 



Editora-chefe do Grupo SERRANOSSA desde 2010, é formada em Comunicação Social - Habilitação Jornalismo, pela Unisinos, e tem na Língua Portuguesa e na Fotografia duas de suas maiores paixões.



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