Opiniões repugnantes

Por: Greice Scotton Locatelli | 23/11/2018 06:00:31

O mundo caminha a passos largos para o completo caos. Essa é a constatação que se tem depois de ler comentários de reportagens diversas na internet. É cada situação absurda o suficiente para fazer até o mais otimista dos mortais perder a fé na humanidade. 

Você já fez esse teste? Já adianto que você provavelmente ficará com nojo de alguns internautas. Mesmo assim, recomendo a experiência como forma de entender por que o mundo está esse caos. Não é nem falta de respeito ou empatia, é pior: é um ódio desmedido, sem um alvo específico. Apenas ódio.

Para você entender melhor a que me refiro, um exemplo desta semana: a notícia de que uma senhora de 90 anos de idade foi agredida e estuprada em Minas Gerais após a comemoração da própria festa de aniversário. Logo internautas mostram indignação ou revolta típicas de situações como essa, afinal, é um ser humano, uma mulher que poderia ser alguém da sua família, que viveu 90 anos para chegar a essa fase da vida e ser violentada e agredida brutalmente em um momento que era para ser de festa. Entre os comentários, alguns que só podem ser descritos como repugnantes. “Ela fez aniversário e ganhou um baita presente”, “Falemos a verdade: ela gostou e pronto!”, “Uma barbaridade dessa acontecendo com essa pobre senhora e o pobre do Palmeiras continua sem ganhar um Mundial. Lamentável!”.

Gente, que mundo é esse? Poucos crimes são tão absurdos quanto estupro, mais ainda quando envolve crianças ou pessoas mais velhas. Como alguém consegue tirar sarro disso, relacionar com futebol, dizer que a mulher gostou ou que a agressão foi um presente? Eu me pergunto como essas pessoas são na vida real e temo que sejam tão desrespeitosas quanto são usando a máscara do “anonimato” on-line. E olhe que esse é apenas um exemplo. Quer outro? A notícia é “Incêndios matam 80 pessoas nos Estados Unidos”. Comentários: “A previdência aqui do Brasil precisava de uma limpeza dessas também” ou “Burn Mother Fucker,  kkk” (“Queime, filho da mãe”, na tradução livre).

Ok, talvez você argumente que os bons são maioria. Concordo. Só que as redes sociais deram voz a uma minoria que parece estar crescendo e ganhando cada vez mais adeptos por meio da disseminação da falta de amor e isso, por si só, já é preocupante.

Se você entende de informática, talvez rebata alegando que não existe “anonimato on-line”. Outra verdade, pelo pouco que sei. Entretanto, você deve concordar que falta uma regulamentação eficaz e um caminho simples que permita punir pessoas que disseminam ódio ou proclamam violência em ambiente on-line.

A solução poderia começar com sites e aplicativos que não permitissem criação de perfis falsos ou a emissão de opiniões anônimas, que exigissem um cadastro prévio mediante comprovação por meio de documentos. Talvez amenizasse um pouco, mas é necessário ter em mente que seria uma gota em um oceano e que precisaria ser aplicado a milhões de usuários – e, sinceramente, não sei se a proporção que as redes sociais tomaram permitiria algo desse nível hoje.

A tecnologia trouxe avanços inimagináveis, facilitou absurdamente a comunicação e deu voz a pessoas que antes não teriam vez. Só que infelizmente entre elas existem algumas que não mereciam poder ser descritas assim. Gente tão repugnante quanto as próprias opiniões e que insiste em perder a oportunidade de ficar calada.

Espero que as palavras de quem se comporta desse jeito on-line sejam apenas “fogo de palha” graças ao anonimato que alguns sites permitem. Mas tenho minhas dúvidas se elas não pensam e agem assim também na vida real.


 


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Greice Scotton Locatelli

Greice Scotton Locatelli

 



Editora-chefe do Grupo SERRANOSSA desde 2010, é formada em Comunicação Social - Habilitação Jornalismo, pela Unisinos, e tem na Língua Portuguesa e na Fotografia duas de suas maiores paixões.



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