Lamentável e inútil

Por: Greice Scotton Locatelli | 30/11/2018 06:00:16

A cena se repete com uma frequência bem maior do que deveria. No celular, uma mensagem em tom de desespero pergunta se eu sei detalhes de um acidente grave que teria ocorrido na ponte do Rio das Antas, envolvendo um caminhão que perdeu os freios e atingiu um paredão. Em seguida, mais um pedido, dessa vez de outro conhecido: apavorado, ele pergunta se é verdade que a tal carreta supostamente acidentada teria passado por cima de dois carros. Em questão de minutos, uma terceira pessoa questiona por que ainda não divulgamos os seis mortos no acidente. Sabe o que esses três conhecidos têm em comum? Todos participam de grupos de WhatsApp. 

Não há nenhum problema em fazer parte. O aplicativo revolucionou a comunicação e é extremamente útil e funcional no dia a dia, especialmente no campo profissional, no meu caso. O problema são algumas pessoas – que não devem ter nada melhor para fazer na vida – que inventam esse tipo de besteira, atiçam o já bem vasto imaginário popular e saem espalhando essas inverdades. É a versão moderna do igualmente inútil trote, só que com proporções muito maiores.

Graças a Deus o tal acidente não aconteceu, mas os boatos fizeram com que equipes de resgate se deslocassem, em vão, para verificar. Tempo perdido, dinheiro (nosso dinheiro) gasto à toa, sem contar o risco: e se naqueles longos minutos até o suposto local – próximo à ponte do Rio das Antas – um acidente de verdade, com pessoas machucadas de verdade, tivesse ocorrido em qualquer outro lugar da cidade? Será que quem inventa esse tipo de coisa não pensa nisso?

Então, mais uma vez, eu IMPLORO – sim, só pedir com educação não tem resolvido. Não acreditem em tudo que vocês recebem pelo WhatsApp ou por qualquer outra forma de comunicação on-line. Não espalhem o que vocês recebem pelo WhatsApp sem confirmar a veracidade daquela informação. Não incentivem esse comportamento lamentável e inútil. Além de perda de tempo, atitudes assim podem trazer consequências graves.

E por falar em atitudes lamentáveis e inúteis, você ouviu a notícia de que servidores de uma cidade do Paraná usaram câmeras de videomonitoramento para filmar mulheres de biquíni na praia? Não se trata de fake news, quem dera. A cidade, tal qual Bento Gonçalves, é uma das poucas privilegiadas em ter um sistema assim em funcionamento. Aí alguns servidores – que assim como quem espalha notícias falsas pelo WhatsApp não devem ter nada melhor para fazer na vida – usam as câmeras para aproximar imagens de banhistas e satisfazer um desejo sexual que só pode ser descrito como imaturo – por que não doentio? Pagos com verba pública, em horário de expediente, com equipamentos pagos com o dinheiro suado da população. Falta de respeito é o mínimo que pode descrever isso (consigo imaginar uma meia dúzia de palavras bem pesadas que não cabem neste espaço). Por sorte um servidor com juízo e noção, ao procurar imagens que poderiam ajudar a localizar um adolescente que havia desaparecido no mar, denunciou os colegas. E se justamente no momento em que o garoto sumiu a câmera estivesse focada em algum corpo sarado porque o operador não consegue se controlar? Nunca vamos saber, mas há uma séria chance.

A humanidade precisa, urgentemente, começar a utilizar a tecnologia a favor da qualidade de vida e de melhora nos relacionamentos. Não dá para, em pleno 2018, desperdiçar tempo e energia criando e espalhando notícias falsas ou usando da tecnologia paga com dinheiro público para satisfazer desejos pessoais.
 


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Greice Scotton Locatelli

Greice Scotton Locatelli

 



Editora-chefe do Grupo SERRANOSSA desde 2010, é formada em Comunicação Social - Habilitação Jornalismo, pela Unisinos, e tem na Língua Portuguesa e na Fotografia duas de suas maiores paixões.



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