E, pela primeira vez, a jovialidade como signo de conhecimento

Por: Felipe Sandrin | 30/11/2018 06:00:23

A cultura hollywoodiana sempre personificou a figura da sapiência através dos cabelos brancos. Boa parte dos grandes diretores dedicou trechos de suas obras à cultura oriental, e de lá surge a figura mística da velhice como sendo esta a árvore do conhecimento.

O velho é rude, mas, ao mesmo tempo, apaziguador; traz as perguntas para conduzir as respostas; pune para extrair o melhor do pupilo. O velho é detentor do conhecimento, em seus traços cabem as respostas, mas, mais do que isso, a necessidade pelo aprendizado: você antes terá de aprender a ler entre as linhas.

Agora, pela primeira vez na jornada do homem moderno, nos deparamos com a substituição da velhice. A experiência deixa de ser transmitida gradativamente e a duras penas, para dar lugar à velocidade. Jovens não consultam mais seus antecessores, mas o Google. A informação transmitida de uma fonte orgânica passa a ser questionada e na era da consulta rápida a internet se tornou senhora de todas as coisas.

Mas quais os efeitos da virtualização na mente dos jovens? Quais as consequências de pela primeira vez os doutores do conhecimento se tornarem objetos de desconfiança? Na medida em que consultar o celular se torna mais prático também desaprendemos sobre a importância da experiência. O que antes os cabelos brancos inspiravam de admiração, hoje são apenas um diferente tom para as mentes jovens. O velho como mestre se torna uma figura vencida, pertencente ao passado e, assim como o pastor a conduzir as ovelhas na Bíblia, recaí sobre estes o estado de não entendimento aos que chegam.

E se o velho deixa de ser o objeto místico ao qual recorremos como podemos nós admirá-lo? Como podemos nós aceitar a nossa própria velhice? Diante da falta desta admiração passamos a temer inconscientemente por nós mesmos: tememos envelhecer. Tememos a tal ponto que aos vinte e poucos anos já pensamos sobre como retardar nosso envelhecimento.

“Envelhecer não é para os fracos”. E se hoje vivemos a era dos sensíveis, das máscaras que ocultam uma total fragilidade, como podemos esperar um amanhã de pessoas saudáveis em corpo e mente? Viver causa medo, envelhecer se torna cada vez mais um abandono. Assim as novas gerações renegam a realidade, abdicam das figuras místicas em prol das figuras on-line.

Tememos a destruição via externa e não percebemos onde está o nosso real e total aniquilamento: é em nosso interior que mora a janela de todos os problemas que vemos à nossa volta.

Há cada vez menos lugar para o velho e ao percebermos isso renegamos a realidade de que nós em breve pertenceremos ao grupo dos exilados. Seremos então largados à nossa frágil ponte emocional – e claro – sucumbiremos com ela.

Aos poucos desaprendemos a envelhecer e a admirar essa velhice. O que nos sobra então é um constante disfarce que se desfaz tarde, quando já somos velhos demais para perceber que aprendemos menos sobre a vida do que verdadeiramente precisávamos. Nós estamos aprendendo o autoabandono, ao ponto que, no futuro, seremos péssimas companhias a nós mesmos. 


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Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: felipesandrin@hotmail.com



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